Criptaremos

Side Quest – Especial Sexta 13

Misaelson é um cara muito ocupado e mesmo assim teve um tempinho para escrever um conto.

Apague as luzes, se tranque no quarto, dê um play e tenha bons sonhos.

 

Calor, ele abriu os olhos assustado por um momento. Levou alguns segundos para perceber o calor incômodo do quarto e o suor em todo o corpo molhava os lençóis. Ainda estava um pouco tonto e resolveu sentar na cama. A cabeça girava ainda do porre da noite anterior. Sentiu alguém do seu lado. Lembrou da garota que viera com ele da festa e dormia profundamente ao seu lado. Parecia não ter se incomodado.
Levantou lentamente sem acender as luzes e foi tateando no escuro até a cozinha. Abriu o freezer pegou um punhado de gelo, largou em um copo e encheu de água. A garganta seca doía e tinha um gosto azedo de bilis. Aos poucos a memória da noite voltava e a primeira foi a quantidade absurda de vômito despejado por ele no gramado. Enquanto os cubos trincavam no copo e gelavam a água quase quente que saía da torneira, lembrou que misturar nunca é uma boa ideia. Depois de uma garrafa de vinho doce (aqueles garrafões de plástico mesmo), uma garrafa de whisky barato e algumas cervejas, tentar provar que não está bêbado dando uma estrelinha nunca é uma boa ideia.
Caiu estatelado no chão e a partir dali foi só um apagão com flashs da noite. Intercalados com períodos de vômito obviamente. Tomou um gole de água para ver se passava a o enjoo repentino. O frescor foi intenso e engoliu até os últimos goles de água, enquanto olhava pela janela as luzes alaranjadas da cidade quieta. Tentava lembrar o resto da noite. Pegou um gelo com a língua e ficou mastigando o cubo lentamente. Lembrou que foi perto do final que a garota se aproximou e perguntou se ele estava bem. Levou ele dali e acabou ficando no apartamento.
Não, não fizeram sexo. Acho, pensou.
Afastou a cueca lentamente e notou a flacidez do pênis. Não, intacto.
Mastigou outro pedaço de gelo sentindo o frio chegar ao cérebro.
Aliás, não lembrava de ter falado com os amigos na hora de sair. Lembrava de passar pelo meio das cadeiras e não ver ninguém.
Não lembrava também de ter sido apresentado à garota que agora dormia na sua cama. Nem o nome dela. O rosto era só um borrado.
Bom, deixaria isso para a manhã e culparia a bebida.
Lavou o copo e sentiu alguém olhando pelas suas costas. Olhou para trás, ainda na escuridão e viu o vulto parado no escuro. Achou que era a garota mas o vulto era muito mais alto que ela, encostando no teto da casa e quase se curvando. Deixou o copo cair assustado, se espatifando no chão. A sombra se aproximou com dois olhos brancos sem íris.
Um fio de urina quente correu pela sua perna. Sentiu lentamente suas pernas e braços serem engolidas pela escuridão. Um ímpeto de dor do qual ele não conseguia se livrar. Um calor que o consumia dos pés, subindo pelas pernas. Ao longo de algumas horas, enquanto chorava e se debatia, a escuridão estraçalhava pouco a pouco do seu corpo, ele ainda vivo, sem conseguir pronunciar uma palavra. Apenas soluços e lágrimas que vertiam no seu rosto.
A dor parecia durar uma eternidade. Aqueles olhos sem vida que o tiraram da festa e agora, a centímetros do seu pescoço, drenavam o resto do seu sofrimento antes de um último grito abafado de desespero.

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