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Imaginaremos #12: Fugindo de Mary Sue!

Sejam bem-vindos ao Imaginaremos, seu post semanal de RPG no Capinaremos! Hoje falaremos sobre um caso muito comum nas mesas de RPG, o Perfeito Chato.


Mestre: Então… “As paredes do labirinto são grotescas e ancestrais. Suas inscrições inspiram o medo e pavor no coração do grupo e…

Jogador: Hey! Sou imune a medo!

Mestre: Ah, ok… “Você ignora as inscrições, sabendo que a verdadeira luz está em seu coração. E então as paredes começam a se fechar…

Jogador: Eu seguro. Minha força é 35!

Mestre: Ah é… “Você segura as paredes, mas de suas lajotas sai ácido, queimando suas mãos e…”

Jogador: Sou imune a ácido! E a sono também!

Mestre: Você é imune a tapas?

Jogador: Acho que sim… Aqui! Imunidade parcial a dano corpo-a-corpo! Rá!

Mestre: Vamos testar isso…


 

Já aconteceu com todo mestre e provavelmente a maior parte dos jogadores já viu um desses na mesa. O perfeito herói, nenhum erro em sua planilha, nunca pego desprevenido, cada ataque um acerto perfeito e cada luta um balé de brutalidade e elegância. Um baita de um chato!

Convenhamos, todos nós queremos que nossos personagens evoluam, sejam grandes e poderosos. Porém, quando tudo isso vem sem desafio, a experiência se torna no mínimo irritante. Qual o mérito de derrotar o vilão se não houver uma dificuldade?

Mas Murilo, então o Mestre deveria aumentar a dificuldade geral do jogo!

É…. Mais ou menos. Lembrem-se sempre que o RPG é um jogo colaborativo e provavelmente não existe só A Tenente Mary Sue jogando em sua mesa. Algumas vezes, os jogadores podem cair no power play e acabar com uma campanha direcionada para outro fim. E então, como resolver?

Primeiro é preciso entender o jogador. Botar defeitos no seu personagem querido não é uma tarefa fácil, seja em qualquer mídia que está sendo trabalhada. No RPG, a dificuldade é ainda maior, pois é tentador fazer o personagem com o menor número de fraquezas possíveis  para melhorar suas chances de sucesso e minimizar os riscos que ele correrá. Alguns jogadores simplesmente não conseguem se livrar do pensamento de vitória ou derrota. Acham que precisam ser o melhor dos melhores, para assim “ganhar” o RPG. Assim, dessa forma, nunca existirá uma cena em que seu personagem pareça inútil ou simplesmente fraco. Mas, talvez o que mais motive os jogadores a criar a Perfeição Encarnada é o eterno desejo de ser protagonista. Afinal, o herói sempre vence o vilão no final, não é? Derrota o mal, fica com a princesa e todos vivem felizes, certo? Ele não vai morrer no meio do caminho? Não é?

Vamos com calma… É claro que o Bárbaro de músculos brilhantes e um machado enorme chama bem mais atenção do que o fracote do plebeu com força 5, mas ser o herói não quer dizer que você é o protegido do Mestre. Todos os heróis, de todas as mídias, enfrentam grandes provações para assim, superar seus defeitos e problemas e triunfar no final. Ou não, alguém lembra de The Wickerman?. Evitar problemas ou tentar contorná-los com alegorias não é o que você quer para seu herói. Como eu disse lá no começo, qual é a graça de derrotar o vilão sem nenhuma dificuldade?

Se por um lado um personagem sem defeitos é um completo chato, encher o infeliz de defeitos também não é a melhor solução. Se os sistemas de RPG fossem personagens em uma taverna, provavelmente você veria o GURPS como o velho bêbado, caduco e sábio no canto do estabelecimento. Em sua segunda edição, o sistema de Steve Jackson trazia uma dica aos jogadores. Tomem cuidado para não transformar seu personagem em um corcunda, surdo e louco de um olho só.

Personagens tem que ter algum ponto forte, algum destaque. Exagerar nos defeitos torna seu personagem completamente banal, correndo o risco de ser até mesmo inferior aos personagens do mestre a sua volta.

Existem muitos personagens sem defeitos, que normalmente seriam Mary Sues. Elric de Melniboné, protagonista da série de romances de mesmo nome, é uma figura melancólica, cujas falhas de caráter são fruto de poderes além de seu controle. Neo, o Predestinado, só falha quando é traído ou então enganado.

Trocando em miúdos, você até pode criar bons personagens aparentemente perfeitos, mas esses funcionam melhor como arquétipos, ferramentas para a história. É preciso alguma sensibilidade e experiência para tornar um personagem perfeito alguém interessante e agradável para a história. Se você conseguir, caro jogador, parabéns. Você conseguiu um ícone… Mas é mais provável que crie um chato…
No fim das contas, um dos maiores heróis da fantasia medieval é um baixinho de pés peludos e sem um dedo. Seu personagem pode ser gago ou vesgo, sem problema algum. Ele pode ser o que você quiser, afinal o mais importante é se divertir com seus amigos. 🙂

Por Murilo Lamegal, Designer, empresário meio amalucado, uma preguiça humanóide e nerd em tempo integral.

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