Criptaremos

Criptaremos – Um conto de Carnaval

E ai trevosos, Quer dar uma pausa nas festividades carnavalescas? Não, que bom pois estamos aqui um conto de carnaval.

“A noite chega e é sempre mais escura pouco antes do amanhecer, isso é, se você sobreviver até lá.”

Abra sua mente, apague as luzes e se tranque no quarto, pois agora é a hora do terror.

UM CONTO DE CARNAVAL

Terça-feira, dia 28/02/2017, Bernardo aproveita com seus amigos o último dia da semana para curti o baile de carnaval que acontece todos os anos perto de sua casa. É o último dia para aproveitar porque ele sempre deixa a quarta-feira para a “desintoxicação”. Este ano, mesmo com todo o calor, Bernado decidiu se fantasiar de mexicano, com um enorme sombreiro, um poncho muito colorido e um belo e robusto bigode falso, leva consigo uma garrafa de tequila e distribui shots para aquelas que, aos seus olhos, são as mais belas do baile.

Marcos, seu amigo mais “porra louca”, pega uma garrafa e dá a Bernardo, junto com um pequeno saquinho com a borda azul e alguns comprimidos dentro, e os coloca em um dos bolsos de sua calça – Isso aqui é pra garantir teu dia, mas só um por cachorra, mais que isso você, ao invés de se dar bem, vai preso por assassinato. Bernardo sabia o que era, mas não ia usar as famosas “drogas de estupro” para pegar ninguém.

Em um momento de frisson, enquanto gritava o refrão da canção que saia pelos falantes do trio elétrico, Bernardo esbarra em uma moça.

– Desculpe, desculpe – disse Bernardo antes de se virar para a moça.

Ao terminar a volta, Bernardo olha para aquela que seria a mais bela mulher que vira naquele ano, quiça na sua vida, duas pequenas galáxias azuis no lugar dos olhos, ondulações simétricas desciam dos lados de sua cabeça em direção ao seu rosto. Um corpo voluptuoso e tudo era realçado pela fantasia de melindrosa.

– Discúlpeme, no he mirado hacia adelante – disse a moça.

– Que? – Bernardo não entende o que ela disse.

– Discúlpeme, não olhar para adelante – disse a moça devagar e gesticulando a cada palavra.

Bernardo entende a situação da moça – Ohh, no, no io insisto, la culpa foi minhá – Enquanto insiste na culpa com seu portunhol, Bernardo prepara um shot e o entrega para a moça, ela aceita, vira de uma vez, faz careta e limpa a boca com a mão.

– Gracias.

Bernardo prepara outro e entrega a moça que volta a aceitar, mas quando vai pegar, Bernardo tira o shot que já quase estava na mão da moça – Primeiro me fala seu nombre – A moça faz uma cara de quem não entende, Bernardo grita perto da orelha dela – Nombre, su nombre.

– Catarina – disse a moça num sotaque bem carregado.

– Y su nombre? – questiona ela de volta. Fernardo – responde Bernardo de imediato, ele já havia se preparado para aquela situação, sua namorada estava em casa pois não gostava de multidões, logo, ele não queria correr qualquer risco de saltar uma notificação de amizade em sua rede social.

Bernardo volta a servir shot atrás de shot para a moça enquanto seguem a folia, até que em um momento Catarina recusa – Yo ya estoy borracha. Ela abaixa a cabeça por um momento enquanto se apoia em Bernardo. Ele olha em volta na busca de auxílio. Nesse momento seu amigo Marcos ao ver a cena, chega ao lado de Bernardo – Vai lá carai, aproveita que ela tá bêbada, leva ela ali no canto e créu – diz enquanto aponta para uma viela que estava estranhamente vazia.

Ele pensa um pouco e decide – Vamos, tem um lugar mais tranquilo ali, você pode respirar um pouco. Ele a leva através da multidão até a viela, lá ele a põe sentada na calçada, pega uma garrafa de água que trazia consigo e entrega a moça que deita ali mesmo. Bernardo tem uma crise de consciência e puxa o celular do bolso para ligar para uma ambulância, ao puxar o celular não vê que o saquinho com as pílulas caem.

O telefone da emergência chama, ele se afasta um pouco para ouvir melhor, ao ser atendido Bernardo explica a situação e pede auxílio à atendente – Qual seu nome senhor?

– Fernan… digo Bernardo, Bernardo por favor venha logo. – responde ele nervosamente

– O atendimento estará ai logo senhor. – responde a atendente.

Bernardo preocupado volta para junto de Catarina e senta-se ao seu lado. Ela está deitada, desacordada, presume ele. A garrafa de água está aberta ao lado dela, o calor ainda castiga, ele pega a garrafa a dá alguns goles e apesar da água estar quente, ela o refresca um pouco. Enquanto bebe, ele vê na mão de Catarina um pequeno saquinho vazio com as bordas azuis.

Bernardo arregala os olhos, olha para o fundo da garrafa que está em sua mão e vê restos dos comprimidos se dissolvendo, leva a mão a garganta e entra em pânico, olha para o lado e Catarina não está mais lá, se levanta assustado e procura a moça sem sucesso.

Bernardo tenta pegar o telefone de novo, mas as drogas começam a fazer efeito e ele deixa seu celular cair quicando para longe, ele segue o celular que parou aos pés de uma pessoa, que abaixa, pega o aparelho e entrega a Bernardo. Ao levantar o olhar, Bernardo vê que a pessoa que pegou o aparelho é Catarina.

– Catarina, onde você estava? Me ajuda! Você não sabe o que está acontecendo? Fique aqui! A ambulância já está vindo, eu ingeri…

– Catarina não – Interrompe ela, enfática – é Catrina, Ca-tri-na – O sotaque dela sumiu.

Seu rosto que antes lindo, começa a se transformar e colorir, sua pele bronzeada fica pálida, tão pálida, grandes bolas negras crescem em volta dos olhos com um florido vivo contornado-as, o nariz fino some e um pequeno triangulo negro aparece em seu lugar e a boca com antes lábios vermelhos dão lugar a um enorme sorriso fechado que vai de ponta a ponta nas maçãs do rosto.

– Eu devia estar bêbada mesmo, pra não conseguir falar meu nome direito – Diz para si mesmo a figura fantasmagórica – E eu sei muito bem o que está acontecendo – diz enquanto levanta o saquinho com borda azul.

– Porquê, porquê você fez isso?

– E isso Fernan…..digo Bernardo, é o que você ganha por tentar enganar a Morte…. hasta luego.

 

 

Comentários

Populares

Topo