Criptaremos

CRIPTAREMOS – Frio

Digá lá seus energumenos,

 

Prontos para um conto antes de dormir? Em homenagem a esse tempo MARA que faz na cidade um conto sobre quedas de temperaturas. Por isso pegue seu agasalho, uma xícara de chá e não se esqueça de apagar as luzes.

 

“A noite chega e é sempre mais escura pouco antes do amanhecer, isso é, se você sobreviver até lá.”

Abra sua mente, apague as luzes e se tranque no quarto, pois agora é a hora do terror.

FRIO

Noite quente em uma das maiores metrópoles do mundo, apesar de seu grande volume de pessoas e a fama de que a cidade nunca dorme estranhamente naquela noite de terça-feira as coisas estavam muito calmas, ouvia-se o som de um carro e outro passando mas nada comparado aos dias de grande fluxo. Mesmo com o calor que fazia naquela noite os bares estavam com fluxo baixo e alguns até fecharam as portas mais cedo,

Em uma grande avenida Paulo, um clássico executivo com seu terno alinhado, barba feita e cabelo bem penteado segue apressado em direção ao seu carro, com o fluxo intenso da manhã daquela terça, o estacionamento em que ele geralmente para estava cheio e por fim só conseguiu vaga numa viela um pouco afastada do prédio onde trabalha.

Sua marcha apressada é brevemente interrompida pelo barulho e o vibrar que vem do bolso de seu paletó, Paulo pega o celular, desbloqueia a tela que ilumina seu rosto.

Sidfield, é o nome que aparece na tela.

Paulo desbloqueia e atende a ligação bravo – Estava esperando você me ligar! – Ele balança a cabeça. – Sim, sim, sim, preciso das informações amanhã!

Paulo sai da via principal e entra em uma rua, ele anda mais rápido e gesticula bastante – Não quero saber, amanhã na reunião preciso a documentação pronta! Sid, sem os documentos…. – Senhor, senhor – Uma voz trêmula e baixa interrompe a conversa de Paulo.

Um velho senhor que apesar do calor daquela noite está com um agasalho, calça e touca todos muito puídos. Paulo encara o velho que  está com uma das mãos em seu ombro. O mendigo faz um gesto para poder falar, o executivo faz um olhar entediado e cobre o telefone com a mão – O que foi? Não está vendo que eu estou ocupado.

O mendigo tem um objeto nas mãos e o empurra na direção do executivo – Compra, é bom pro frio, é muito bom pro frio, pro fio, compre! Enquanto repete constantemente, ele aponta para uma toalha que está no calçada, próxima a um muro e ao lado de uma pequena caba improvisada, em cima da toalha há alguns objetos feitos com sucata, são cruzes e figuras religiosas basicamente todos com temáticas religiosas.

Paulo volta a colocar o telefone no ouvido – Sid, depois te ligo – desliga o celular e volta a atenção para o mendigo que continua a pedir – Compre, é bom contra o frio, compre – Paulo se irrita empurra o mendigo no ombro para se afastar – Que frio? To louco, sai daqui! ele se afasta continuando o seu caminho em direção a viela que estava seu carro, deixando o mendigo para trás.

Logo após entrar na rua vazia, Paulo pega o telefone novamente, desbloqueia a tela e digita alguns números, ele avista seu carro que está logo abaixo de um poste de luz, que iluminava a rua e principalmente seu carro. Ele para ao lado do veículo e procura a chaves, a pega seu bolso direito, mas quando foi tentar abrir, deixa a chave cair no chão.

– Puta que pariu, Sid, o maluco do frio e agora isso. O que mais falta acontecer?

A luz do poste se apaga. Paulo olha para cima, balança a cabeça negativamente – Pra que fui abrir a boca?

Ele se abaixa e usa o celular para iluminar o chão afim de achar a chave que havia caído.

Apesar do poste sem luz, uma leve iluminação proveniente das casas daquela rua iluminam o local próximo ao carro de Paulo, iluminam exceto por uma sombra no chão, na verdade parece uma grande mancha de tinta, mas estranhamente a macha escorre devagar em direção a rua, sua velocidade aumenta gradativamente. Ela se esgueira pelas paredes, pela calçada e finalmente se enfia embaixo do carro de Paulo.

Ouve-se um gemido – Ugh – e uma batida seca, o executivo some e o celular fica no chão iluminando a chave embaixo do carro.

A sombra continua a se esgueirar pela rua e por onde passa as luzes da rua e das casas vão se apagando, ela vai em direção ao mendigo. O velho a encara e a vê chegando perto, ele pega muitas das peças que e as abraça – É bom contra o frio, é bom contra o frio, ele devia ter comprado – Repete o velho senhor que se encolhe pelo medo e pela temperatura que cai a medida que a sombra se aproxima, sua respiração se condensa no ar quase como se ele tivesse fumando um cigarro.

A sombra se aproxima mais e mais do mendigo, que deixa uma cruz cair, ela quica e para na frente da sombra que também cessa o movimento, e vai embora.

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