Egocentrismo

O dia em que o Capinaremos foi parar no The New York Times.

Tudo começou com um e-mail recebido na última segunda-feira, 22/05.

O e-mail veio diretamente do Departamento de Produção e Divulgação de Imagens, da  Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República. Só o nome do departamento já dá medo, né?

Segue o e-mail na íntegra:

Aparentemente inofensivo, algumas partes do e-mail me deixaram com diversas pulgas atrás da orelha. As fotografias só estão liberadas para “usos jornalísticos”? Para outras finalidades eu preciso de uma “autorização prévia”?

Ou seja, para fazer memes do Excelentíssimo Senhor Presidente Michel Temer, eu precisaria antes de um “de acordo” do departamento. De certa forma parecido com um movimento sofrido pelos órgãos de imprensa lá pela década de 60, não?

Não vamos comparar diretamente com a censura imposta pelo governo militar de 64, porque não veio ninguém na minha porta me bater ou me prender, pelo menos até o presente momento.

Bem, não preciso dizer que o medo nasceu em mim instantaneamente. Nunca, em quase 10 anos de Capinaremos, fui sequer processado por fazer piadas com qualquer tipo de pessoa, algo até relativamente comum no meio humorístico em que vivemos. Minha primeira reação foi “acusar o recebimento”, como solicita o e-mail, e me colocar a disposição caso o famigerado departamento precisasse de maiores esclarecimentos.

Depois, resolvi divulgar o e-mail para meus colegas na Capina Meme Factory, para que mais pessoas interpretassem o e-mail e me ajudassem a decidir o que fazer na sequência. Não era loucura minha, o e-mail para eles também era uma espécie de ameaça misturada com “censura velada”.

O que fazer, então? Parar com os memes usando a imagem do presidente?

A resposta da galera foi: jamais. Vamos intensificar ainda mais a produção!

O resultado dessa “afronta” ao governo federal foi o apoio da imprensa nacional. A primeira matéria foi escrita pelo nosso querido colunista Misael Lima, que além de ser dono do Canal SideQuest, também é jornalista no Jornal de Novo Hamburgo.

Misael tentou contato com o Departamento de Imagens do Planalto, para tentar entender melhor o e-mail enviado. Um rapaz chamado Sérgio afirmou que o “outras finalidades” eram de fato as produções humorísticas que gostamos de chamar de memes e que, se continuássemos, os casos seriam analisados e poderíamos sofrer “sanções”. Pressionado a falar mais sobre as sanções, o funcionário desligou na cara do nosso querido colunista.

Diante desta resposta, digamos assim, dúbia, o caso chamou a atenção de outros membros da imprensa. Logo em seguida a Zero Hora, principal jornal do Rio Grande do Sul, fez uma matéria sobre o tema. O Departamento, ao ser contatado pelo ZH, literalmente “arregou”. Eles afirmaram a repórter que não proibiram a criação de memes e que só queriam os créditos nas fotos caso fossem utilizadas.

Créditos nos memes? Mas não era só para fins jornalísticos?

E outra, como vou controlar mais de 13 mil criadores de memes da CMF e saber de onde eles tiraram as fotos para depois creditar ao suposto fotógrafo que a tirou?

Conversando com alguns amigos jornalistas e advogados, chegamos a conclusão que a produção de memes se encaixa em uma categoria similar as ‘paródias’ e que tanto o art. 46, VIII da Lei 9610/98 quanto o artigo 47, que menciona a possibilidade de paródias, autorizam os memes.

Papo vai, papo vem, a notícia acabou saindo no Estadão, na Folha, no Olhar Digital, no G1 e em dezenas de outros jornais e portais. Afinal, quando falamos de alguma espécie de “censura”, todos os meios de comunicação possivelmente podem ser afetados, não é mesmo? Nada mais justo que fiquemos juntos nessa.

Numa sacada genial, com um pinguinho de oportunismo, o Partido dos Trabalhadores também entrou na onda e disponibilizou uma linda coleção de fotos do senhor Michel, liberadas para a criação de peças humorísticas.

Resumindo, tentaram fazer uma ameaça no estilo “se colar, colou” e o tiro saiu pela culatra. A produção de memes aumentou exponencialmente, como você pode observar ao scrollar a nossa página no Facebook e ainda tivemos o apoio massivo de toda imprensa nacional.

Para coroar a situação, na manhã de hoje, 27/05, a notícia foi citada em um artigo do The New York Times, onde comparo nossa situação política nacional com os violinistas do Titanic, que resolveram continuar tocando enquanto o barco afundava.

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