Criptaremos

CRIPTAREMOS – Palhaço

Boa noite Capinadores,

Coulrofobia. Coulrofobia é o termo psiquiátrico que é usado para aqueles que têm medo de palhaços. É comum entre crianças, e às vezes também ocorre com adolescentes e adultos. Às vezes o medo é adquirido após experiências traumáticas com um indivíduo singular, ou após ver algum palhaço ameaçador na mídia.

O conto de hoje foi feito pelo nosso querido Burilo que além que escrever a coluna Imaginaremos separou um tempo em sua agenda lotada e pôs a mão na massa.

PALHAÇO

– A noite é realmente bela. A lua tão brilhante neste céu cinzento de São Paulo. E aqui estamos nós, para mais um grande espetáculo do Palhaço! Sabe… Tem coisas muito interessantes sobre a noite. Alias, não só à noite, mas as coisas que ela trás consigo… Já ouviu falar que quando escurece, todos os gatos são pardos? Devia ter pensado nisso antes de não olhar pra trás antes de sair do hall. Achou que aquela leve corridinha poderia salva-la do terror é? Ora, ora garotinha… – Acariciei seu rosto ternamente, afinal era minha convidada de honra – Nem sempre seus cobertores lhe protegerão de todo mal. Às vezes, o mal vem em forma física e arranca tudo que você tem. Compreende minha analogia? – Perguntei para minha convidada, que nada respondeu. Olhava para os lados, sem nem ao menos aproveitar o jantar que preparei exclusivamente para nós. Algo a luz de velas, vinho, coisas finas. Nem se importou com meu trabalho, uma verdadeira vadia. Dei-lhe um tapa para criar modos.

– O que você quer de mim? Quem é você?! – Exclamou a pequena matraca. Apenas balancei a cabeça, já esperando por tais questionamentos. Como era ridículo argumentar com este tipinho de pessoa, achei que ela poderia ser a escolhida. Me enganei de novo?

– Hei! Sou eu que faço as perguntas aqui queridinha… Primeiro, seu nome – Perguntei com a voz robótica. Sempre adorei essa mascara, desde minha infância quando a vesti pela primeira vez. A voz saía de minha boca como minha, mas passava pela mascara e se tornava algo completamente novo e anormal. Toda vez que meu som era espalhado, um coração pulava em alegria. E como era bom lembrar os bons tempos de infância. Correr perseguindo minha irmã mais nova… Tempos felizes que nunca voltarão. Uma pena, pois adoraria apresentar esta jovem a ela. Encarei-a novamente, repetindo minha pergunta – Então minha cara, qual é seu nome?

– Helena Almeida de Chagas… Senhor… – Respondeu a mulher, fraca e tímida. Senti um punhado de pena em meu coração.

– Pois bem Helena, vamos aqui responder a uma série de perguntas! Vi isso em um desses reality shows e amei! Primeira questão: Qual é seu maior medo?

– Você é maluco! Louco! – Gritou a garota. Um soco em seu maxilar corrigiu seu vocabulário impróprio. Retornou ao seu lamento silencioso, chorando enquanto um filete de sangue escorria por seus lábios – Por que você tá fazendo isso comigo? – Choramingou Helena, manchando seu rosto em maquiagem borrada e sangue.

– Por que você é interessante. Agora responda minha pergunta e caso acerte todas, você pode sair, tudo bem? – Perguntei, gentil. Uma vez minha irmã me disse que um verdadeiro cavalheiro trataria todas as garotas como damas. Talvez fosse uma boa hora para tentar isto. Soprei as velas, encerrando nós dois em uma escuridão mortal. Helena iniciou outro choro, silenciado por um tapa.

– E-Eu tenho medo do escuro… Muito medo…

– Huum… Ponto para Helena! Agora vamos para a segunda. Supondo que acidentalmente você matasse um ente familiar muito querido. Estou fazendo uma suposição, veja bem! E essa pessoa está agonizando no chão… Vamos Helena! Esforce-se para imaginar! – Gritei, chamando sua atenção – Ela está agonizando e lhe pergunta por quê? O que você faz Helena? O que você faria nesta situação? – Minhas mãos tremiam perante o olhar implacável de minha dama. Lágrimas escorriam por sua face e ela balançava a cabeça. Estaria alguma coisa errada?

– Eu não sei… Por favor, me tira daqui… Eu só quero ir embora… – Repetiu à resmungona, encerrando minha empolgação. Saquei uma pequena lâmina e comecei a lhe cortar os braços, lentamente. O sangue brotava farto enquanto a garota urrava de dor. Primeiramente, logo abaixo do bíceps, um longo talho foi desenhado. Depois, ative-me a suas pernas, brincando de ziguezague com a navalha. O sangue espalhava-se por minhas mãos enquanto Helena apenas podia gritar. Logo sua voz cessou, vítima do cansaço. Rouca, perguntou – Pelo amor de Deus, o que você quer de mim?

– Vocês sempre recorrem a ele não é mesmo? Em momentos de crise, de choro. Minha mãe também correu pros braços dele quando minha irmãzinha faleceu. Tornou-se uma louca fanática, e aquilo a consumiu em um câncer. É esse o destino dos fanáticos. Agora minha cara, te darei uma ultima chance… Uma última pergunta do nosso joguinho… – Me aproximei de seu ouvido, sussurrando – Por quê?

Helena me encarou, buscando uma resposta. Ela mesma havia desistido de tentar, entregue sua vida a mim. Sorri em resposta, de dentro da máscara. Mais uma inútil, mas a tratarei como uma dama, libertando-a de seu medo mais profundo. Busquei em minha mala o pequeno galão de álcool. Helena exclamava por perdão, implorando por sua vida.

– Onde há escuridão, as chamas iluminam. Você está absolvida… – Disse, antes de atirar o fósforo na mulher.

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