Post do Patrão

Circuito e Artistas Independentes

Todo mundo possui um artista favorito, geralmente um artista consagrado. Aquela banda que faz um show megalomaníaco, com efeitos pirotécnicos, lasers, telões de led e até mesmo representações cênicas podem compor um espetáculo de ícones da música mundial, vide superproduções de shows de artistas Pop como Madonna, Pet Shop Boys e Katy Perry. Imaginem a infraestrutura, logística e principalmente dinheiro para que uma noite inesquecível para os fãs (e apenas mais um dia de trabalho para o artista) seja elaborada… Muito se trabalhou para que os artistas hoje consolidados chegassem ao patamar de celebridades.

O que muitos não lembram é que todos eles começaram no circuito independente fazendo apresentações pra lá de modestas com público escasso e muitas vezes tendo prejuízo, que futuramente são ações avaliadas como investimento. Com toda razão. Nem sempre eles viveram do glamour, acredite. Se você é um artista e/ou tem uma banda, pode ficar otimista porque sempre se começa por baixo e um dia você pode chegar ao sucesso – falo de sucesso comercial, pois a palavra “sucesso” é subjetiva e cada um tem sua concepção do que é o sucesso para si. Claro que isso depende de muita dedicação, sorte, pessoas trabalhando bem e seriamente ao seu lado… e às vezes nem assim a coisa vinga. E qual seria o grande segredo de um ato independente se tornar um sucesso absoluto de público e de dinheiro? Se eu soubesse provavelmente não estaria escrevendo esta coluna! (risos)… ou estaria escrevendo pra me divertir, é sempre bom variar um pouco as atividades! (risos)… Mas muitas bandas, inclusive as que toquei, estariam numa situação bem melhor financeiramente se soubessem a fórmula correta… brincadeiras à parte, esta estratégia não é uma ciência exata.

A perpétua geração 80 liderada por bandas de destaque como Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Titãs, Blitz e Biquini Cavadão trouxe o conceito de música independente ao mainstream. Contendo integrantes apelidados filhos da ditadura (e em alguns casos, literalmente filhos de partícipes da mesma), surgiram num alinhamento de planetas onde a rádio Fluminense FM conseguiu desferir as bandas acima e muitas outras facilitando a criação de um movimento com o Circo Voador simbolizado como seu celeiro. É claro que precisamos salientar que a união das bandas ajudou e muito a solidificar este movimento (mesmo que pudesse haver alguma animosidade entre alguns artistas, exatamente como funciona o “sertanejo” dos dias de hoje) e os veículos de mídia investiram pesado. Muitos destes artistas se consagraram e até hoje são peças importantes para a música popular brasileira, porém um dos marcos da música independente desta década é de uma galera bem menos famosa – pelo menos à época: a coletânea Grito Suburbano, com participação das bandas Inocentes, Olho Seco e Cólera. Gravada em 1982, é dita como registro fundamental em qualquer discografia do Punk Rock nacional juntamente com a coletânea Sub, de 1983, que participaram Ratos de Porão, Cólera e outras.

Coletânea “Grito Suburbano”

Coletânea “Sub”

Talvez impulsionada pelo surgimento da MTV e pela segunda edição do Rock in Rio, a grande diversidade das vertentes do Rock independente dos anos 90 transformavam os eventos em verdadeiros encontros ecumênicos musicais, tendo no Rio de Janeiro o Garage Art Cult como ponto de referência e o Heavy Metal como estilo mais popular destas bandas. Muitos outros lugares surgiram de improviso e alguns eram itinerantes, as divulgações dos shows eram feitas no boca a boca, na panfletagem na porta dos shows, na troca de demos em fitas cassete e nas matérias dos fanzines – a imprensa pouco apoiava estas bandas. Alguns dos raros veículos que se importavam eram a coluna “Rio Fanzine” do jornal O Globo e a já citada rádio Fluminense FM nos seus últimos anos de vida. Os compact discs, mais conhecidos como CD’s e hoje em dia praticamente obsoletos, eram a nova tecnologia que poucos possuíam e era inimaginável pensar que um dia asdemo tapes (fitas cassete gravadas por artistas independentes para divulgação de seu trabalho geralmente autoral) viriam neste formato.


Lembro que em 1993 assisti no falecido Canecão, casa de shows famosíssima no Rio de Janeiro, um show do Titãs da turnê do disco “Titanomaquia” cuja abertura era de uma banda de Brasília desconhecida para o público geral, mas bem famosa no circuito independente: Raimundos. Eles ainda não haviam lançado seu disco de estreia mas era uma questão de tempo despontarem na mídia, o que de fato aconteceu. Creio que a safra anos 90 de bandas independentes talvez tenha sido a mais frutífera em termos de quantidade de bandas em vários estilos. Não havia apenas um estilo formando um movimento, eram bandas para todos os gostos, porém no meu ponto de vista as bandas deste período que se mantêm até hoje são num número razoavelmente inferior aos anos 80. Planet Hemp e Raimundos já tinham projeção nacional na época que um dos símbolos de investimento nas bandas independentes do Rio de Janeiro foi lançado pela EMI em 1996: a coletânea Paredão, composta por destaques como as bandas Kamundjangos, Funk Fuckers, Resist Control e Sex Noise.

No ano seguinte, a coletânea 100trifuga trouxe várias bandas renomadas até hoje no circuito independente como o Garage Fuzz e Nitrominds. Mas a minha preferência era a banda Barneys, cuja demo Oppressed Feelings tocou até a minha fita cassete desintegrar… era notório que as bandas tinham que fazer acontecer pelo persistente incentivo parco da mídia à época (seria um prenúncio para os dias de hoje?), mantendo os medalhões dos anos 80 e poucos afortunados – porém competentes – artistas oriundos dos anos 90 como carro-chefe nas rádios e TV, como Skank e O Rappa.

Raimundos (Demo 1993)

Sex Noise (Paredão)

Coletânea “100trifuga”

No final dos anos 90/início dos anos 2000 iniciou o movimento “emo” de bandas, que fez agitar novamente o circuito independente com muitas bandas novas, algumas delas revisitadas com integrantes de bandas da década anterior. O Garage Art Cult já era carta fora do baralho e o Ballroom (também falecido, no Humaitá) era considerado um dos lugares obrigatórios e em São Paulo o “santo graal” era o Hangar 110 que infelizmente fechará as portas no fim de 2017. Claro que havia muitos outros locais e nesta década o conceito de Lonas Culturais se expandia às bandas independentes, mas infelizmente não com a frequência que as bandas mereciam. Na década corrente, chegamos a ver alguns coletivos de bandas criados no intuito de se criar uma “cena” e alavancar um grupo de artistas em estilos diversos. Já com a internet fazendo parte do dia-a-dia e no bolso de qualquer indivíduo, a velocidade da informação infelizmente vem junto do dinamismo e descartabilidade. O público mudou, os hábitos mudaram, os meios mudaram.

Quem viveu os anos 80 e 90 ainda pode sofrer com a adaptação ao conflito da geração Z onde o consumo de música se reinventou – mas essa é uma pauta para outra coluna, que certamente está na lista Capivarock. E só pra provar que este mero colunista foi um membro atuante do circuito independente, segue um videozinho da antiga da banda Supertrumpho num show que tocamos em 2005 no Circo Voador, cuja atração principal neste evento foi a banda Los Hermanos.

Supertrumpho – “Lugar Comum”

Há lugares que o artista, na visão de alguns contratantes ou “produtores”, parece que está fazendo um favor ao tocar em seus eventos. Artistas eventualmente sequer recebem uma garrafa d’água (que não se nega a ninguém, vovó já dizia) mesmo se empenhando ao máximo e investindo pesado em equipamentos de qualidade. É uma pena, pois a arte junto com o esporte, na humilde opinião deste que vos tecla, são as principais fontes de criatividade e liberdade que um ser humano pode desenvolver e exercer. Fazendo a ponte com o principal polo comercial da música, os Estados Unidos, as bandas independentes também passam por dificuldades, mas não é preciso ser um expert para notar como são levadas mais a sério. Locais tradicionais como o CBGB’s foram eternizados por colocar a Nova York dos anos 70 como referência de famosas revelações: Talking Heads, Ramones, Blondie e muitas outras. Fazer uma pesquisa sobre os locais eternizados renderia uma coluna exclusiva, certamente um trabalho bastante prazeroso de ser feito.

Um dia isso também poderia virar uma pauta, não acham? 🙂

Como de costume, Capivarock pergunta: qual a banda independente BRASILEIRA (mesmo que tenha se tornado famosa) marcou sua vida e formação musical? Façam os três C’s: Comentem, compartilhem e curtam!

Na vitrola: Barneys – “I Know”

Por Fellipe Madureira
Visitem nossa página: http://acapivaradeucria.com.br/

Projeto entre amigos com muito humor, esporte, música, crônicas e não poderia faltar a cerveja.

Nos sigam nas redes sociais:
https://www.facebook.com/capivaradeucria/
https://www.instagram.com/acapivaradeucria/

Comentários

Populares

Topo