Criptaremos

CRIPTAREMOS – ESPECIAL SEXTA 13 (invasão)

Boa noite,

 

Hoje é um dia especial para aqueles que gostam do lado oculto do mundo, dizem que práticas e rituais com intenções obscuras tem seu ápice no dia de hoje, bruxas voam em suas vassouras, lobisomens saem de suas peles humanas durante todo o dia e zumbis saem de suas covas. Aproveitando a data um desses zumbis saiu de sua cova e nos presenteou com conto assustador.

 

“A noite chega e é sempre mais escura pouco antes do amanhecer, isso é, se você sobreviver até lá.”

Abra sua mente, apague as luzes e se tranque no quarto, pois agora é a hora do terror.

 

WALDHUND

O caso que contarei agora não está registrado em nenhum relatório de missões feitas pelo esquadrão Lumnus. Eu mesmo depois de escrever sobre isso, como forma de aliviar minha cabeça, incendiarei o tratado. As coisas vistas por nós, somente passam pela cabeça dos homens comuns. E em dias de guerra serão sempre tratadas como fruto do estresse. Mas eu e meus amigos sabemos bem o que vimos e sabemos também que não houve alucinação, mas sim um caso do mundo sobrenatural.

Meu nome é Jean Batistè Norá, hoje já posso usar tranquilamente minha alcunha, mas na guerra, devido ao caráter de nossas missões, me chamavam Monalisa. Nasci na Inglaterra, mas fui criado na França por meus tios. Em um dia que nunca esquecerei, estava eu no treinamento de tiro, quando fui chamado pelo capitão às pressas. Entrei num avião, como se fugíssemos do próprio demônio, e fui levado a Londres. Lá conheci meus amigos de esquadrão. E também conheci Winston Churchill. Dia memorável. Porém também o pior dia da minha vida. A partir dali enfrentei situações que nunca imaginaria na guerra. Em vários momentos, se não fosse a presença de meus amigos, eu teria desfalecido.

Um desses momentos é o que estou prestes a relatar. Talvez de todos, o mais incrível momento da guerra. E ele se perderá nas cinzas junto a lareira deste hotel em Paris.

Eu estava dormindo com a boina sobre os olhos, quando um barulho de soco seco me acordou de repente.

– Ei Vodka! Pare de socar o chucrute! – Disse o Bacharel.

– Este imundo nunca dirá nada! Vamos cortar a garganta dele agora e deixar para os animais da floresta! – Respondeu Vodka.

Nosso pequeno grupo era formado por cinco soldados, de diferentes nacionalidades. Vodka era russo, era violento como um touro enfurecido. Cansei de vê-lo matar soldados alemães com os próprios punhos. Bacharel era americano, ele era formado em medicina. Me costurou alguns ferimentos. Era meio mole com prisioneiros, mas tinha uma mira formidável. Sem dúvida o melhor sniper que conheci.

– Pare de dar nome a comida Bacharel! E Vodka vê se deixa a boca inteira. Precisamos desse cara para encontrar o caminho mais seguro para o destacamento nazista. Mamma Mia! Suba até o alto da colina ao Norte e veja se é possível chegar até o rio. – Esbravejou o Irlandês.

– Sim senhor. – Atendeu prontamente Mamma Mia.

O Irlandês era o nosso comandante. Ele não era irlandês de verdade, era americano, mas usava costeletas e tinha baixa estatura. Parecia um duende

irlandês. Era bom com facas e um excelente estrategista. O Mamma Mia era italiano. Incrível não é, mas sim. Ele era uma indicação de um comandante inglês. Rastreador perfeito. Nunca fomos pegos e até aquele dia nunca tínhamos perdido o rumo.

– Monalisa! – Fui acionado – Vá junto com o Mamma, ele vai ficar no ponto de encontro e você traz a informação.

– Sim senhor.

Aqueles apelidos tinham sido invenção do Bacharel. Quando nos conhecemos em Londres, foi nos proibido saber os nomes e patentes de cada um. Eu nem ligava, pois antes dali era soldado. Fui escolhido porque era muito bom em comunicação. Sabia fazer um rádio com meia dúzia de peças eletrônicas. Segui os passos ligeiros do Mamma, ele não falava minha língua. Mas arranhava o inglês com devoção.

– Ei garoto! Corra mais depressa!

– Corre você mais devagar. Não vai tirar o Da Vinci da forca!

Chegamos no alto da colina. Abaixo dela a planície ia ao longe. Segundo nossas informações, depois do rio encontraríamos o destacamento nazista. O frio era quase insuportável. Estávamos em solo russo a três dias e já não aguentávamos mais. Tínhamos capturado o alemão a um dia e meio atrás e pelas nossas contas eles iam estranhar a falta dele e do seu pelotão de doze homens em um dia.

– Precisamos encontra o caminho mais… mais…

– Rápido? Fácil?

– Rápido. Se for fácil melhor!

– Posso voltar e avisar que está tudo bem?

– Sim. Diga que estarei naquelas árvores lá embaixo perto do rio. – Disse apontando para o longe. Onde avistei um punhado de pinheiros.

– Ok. Não atire na gente quando a gente chegar.

– Vou tentar. E trate de correr. Vai anoitecer daqui a três horas.

Corri o máximo que pude, mas não superaria a velocidade de Mamma em momento algum. Demorei mais de uma hora para voltar. Quando cheguei já estava tudo pronto.

– Qual a situação? – Indagou o irlandês.

– Tudo certo. O Mamma vai nos esperar perto do rio. Mas… o senhor ainda não passou as ordens.

– O mesmo de sempre só que mais difícil.

– Como assim? – Perguntou o russo.

– É o seguinte meu amigo embriagado. Temos que sequestrar Ferdinand Schörner.

– Mas esse cara é um dos generais mais importantes do Hitler!

– Por isso a missão é importante! Esse avanço pelo território russo não tem dado muito certo. Claro graças a esses russos malucos que não deixam um grão de feijão no caminho. Mas não podemos deixar que eles cheguem a Moscou ou o tio Stálin vai ter uma bomba nas mãos.

– Fale com respeito. – Resmungou o russo olhando para o chão com os dentes cerrados.

– Calma aí urso pardo. É só forma de falar.

– Vamos chucrute! – Bacharel saiu do meio das árvores arrastando o alemão amarrado. – Eu não tenho o dia todo!

Saímos em fila indiana. Vodka ia na frente, seguido por mim. Atrás de mim ia o alemão, constantemente empurrado por Bacharel. Atrás o Irlandês, lendo uma carta. Certamente as diretrizes da missão. Geralmente ele dividia tudo conosco. Mas aquela missão requeria um pouco de sigilo. Se alguém fosse pego iria tudo por água abaixo. A marcha conjunta e o russo pesado alongaram o tempo de chegada. Quando nos aproximamos do pé da colina já era noite. O alemão tremia de frio em seu uniforme nazista. Nós já agasalhados sentíamos o vento, mas nem tanto.

– Senhor. O homem vai morrer de frio. – Falei.

– Dá o teu casaco para ele francês… aí morre você. – Os olhos do Irlandês brilharam. – Ei! Adolf Filho! Quer um casaco? Olha para esse azimute e me diz: eu vou pelo rio ou por dentro da floresta?

– Schwein!

– Olha, eu acho que isso não foi um sim. Então morre de frio chucrute! A gente descobre sem você. – falou em alto e bom som o Irlândes. Nisso o russo já emendou um soco na boca do estômago do alemão, que caiu de joelhos.

– Attendre. – Nunca ouvi o francês com um sotaque tão carregado. Era o alemão dando seu ar. – Pas tuer! Vous aider!

– O que essa cara ta falando Monalisa? – Perguntou Bacharel.

– Está pedindo para não matar ele. Disse que vai ajudar. Num francês bem ruim, mas está pedindo.

– Pergunta quais caminhos devemos tomar?

Mostrei o azimute e perguntei:

– Rivière ou la forêt?

– Forêt!

– Ele disse para ir pela floresta. Mas como a gente vai confiar num alemão que fala meia dúzia de palavras em francês.

– Não temos escolha. Vamos descer e encontrar o Mamma. Russo vai na frente, qualquer coisa um tiro. Um tiro dessa vez, por favor!

– HAHAHAHAHAHA! Sim senhor!

O russo gostava de gastar munição. Era sempre bom avisá-lo. Quando ele sumiu na escuridão. Nos preparamos no ponto mais alto a espera do tiro de aviso. Ficamos ali parados, por mais ou menos vinte minutos. A essa hora o russo já deveria encontrado o Mamma. O descampado era grande, mas não muito. Foi aí que ouvimos o tiro de aviso.

– Vamos! – Disse o comandante. Mas uma salva de mais tiros o estancou. – Russo idiota. Fazendo estardalhaço!

Os tiros continuaram. Não eram tiros de aviso. Pela forma como os disparos eram espaçados alguém estava mirando e errando algo.

– Senhor tem algo errado!

– Corram na frente! Bacharel Vai pelo flanco esquerdo, Monalisa vai pelo caminho que o Mamma ia usar.

– Mas está escuro eu não vou enxergar!

– Corre em linha reta então. Mas vai ajudar! É um descampado!

– Siimmm seeenhor!

Corri o mais rápido que pude. Sabia que ocultado pela escuridão nenhum atirador me acertaria antes que eu pudesse ter chance de enxergá-lo. Quando alcancei a entrada da floresta vi uma sombra correndo na minha direção. Me joguei no chão e preparei a pistola. A sombra corria rápido, mas não muito. Quando começou a chegar perto parecia desengonçada. A silhueta me era conhecida, mas o escuro não permitia distinguir.

– Levanta do chão garoto! – Era o Mamma esbaforido.

– Italiano! Caralho você me assustou.

– Levanta do chão e corre! – Gritou quase sem fôlego.

Não pensei duas vezes. Levantei e corri ao lado do italiano.

– O que aconteceu. Quem atirou?

– O russo. Tem alguma coisa nessa floresta. Acho que é um lobo enorme!

– Como assim?

– Eu só ouvi o rosnado no escuro aí subi numa árvore. Quando eu vi o russo já estava atirando em algo. Aí eu desci da arvore para ajudar o desgraçado e ele não estava mais embaixo. Quando eu ouvi o rosnado de novo eu corri.

– Você deixou o Vodka para trás?

– Não! Eu não sei onde ele está.

Nesse momento enxerguei o Irlandês vindo a passos cuidadosos, puxando o alemão amarrado por uma corda.

– O que houve?

– Pergunta paro italiano! Ele deixou o Vodka sozinho com um lobo no meio da floresta!

– Eu não pude fazer nada senhor. Eu nem sei onde ele foi parar!

Irlandês não falou uma palavra. Só me deu a corda que segurava o alemão e correu para a floresta. Seguimos ele em passo não tão apressado. A perna do italiano e a corda puxando o alemão tornaria impossível alcançá-lo.

Depois de algum tempo estávamos os três sozinhos, já dentro da floresta. O italiano ressabiado olhava para todos os lados. O alemão tremia de frio e a cara de apavorado era a mesma de antes então não sei se ele entendia situação.

– Vamos ao ponto onde você se perdeu do russo!

– Tudo bem. É naquela direção! – Disse apontando para o escuro, como toda a floresta, só era possível enxergar alguns metros ao redor. Quando começamos a caminhar ouvi um rosnado. Parecia um cão brabo. Só que alto e grave, como se estive rosnando em um microfone. – Ele voltou, vamos subir na árvore!

– Calma italiano. Vamos fazer um círculo é só um lobo. Nós temos armas.

Só deu tempo de olhar para o lado. Algo bateu tão forte em mim que me jogou contra a árvore mais próxima. Enquanto eu apagava, na minha visão turva, eu via o alemão sendo arrastado por um vulto negro, enquanto o italiano subia de novo na árvore.

Acordei com tapas no rosto e com a luz do dia me cegando. Para meu desespero o uniforme que vi não era o verde dos meus companheiros, mas sim o cinza alemão. Três soldados apontando a arma para mim. Um oficial me olhando com cara de surpresa e nosso prisioneiro sentado no chão com a cara cheia de sangue, mas um sorriso largo nos olhos olhando na minha direção. Olhei para o lado e alguns metros de mim estava sentado o italiano com um ferimento na cabeça. Amarrado no chão o russo, aparentemente desacordado. O oficial falou algo em alemão aos soldados e um se aproximou de mim. Agachou e perguntou em bom inglês:

– Que merda vocês são? E o que estão fazendo aqui? São suas perguntas fáceis e se você não responder vamos atirar na cabeça dos seus amigos.

– Tínhamos ordens para ir até Moscou. Buscar gelo e levar até o copo do Führer.

Ele me olhou com cara de desconfiança. Nem eu achei que tinha falado em tamanha clareza. Era uma história idiota que tínhamos combinado dizer, caso fossemos pegos. Eu nunca tinha passado por tortura, esperava morrer antes disso, mas aparentemente essa era a hora.

O alemão resmungou outra coisa, e me deu um soco na cara. Senti o gosto do sangue na boca. Mas me deu um ataque de riso. Lembrei que quando combinamos essa história, Bacharel disse que o primeiro a ter que contá-la ganharia uma rodada de uísque.

Os alemães nos ergueram do chão e nos conduziram por dentro da floresta. Caminhamos por algum tempo, eu ia na frente então não conseguia ver o rosto dos meus companheiros. Creio que tenha sido uma caminha de duas horas, na base de empurrões e socos. Foi quando alcançamos uma parte da floresta onde havia um descampado. Alguns troncos no chão mostravam que os alemães haviam aberto aquela parte na floresta. Sem veículos, mas havia algumas barracas. Por cima, contei uns vinte homens. Quando chegamos ao centro do acampamento, uma gaiola improvisada nos aguardava. Dentro dela o Irlandês, com um olho roxo totalmente fechado.

– Finalmente chegaram. Espero que tenham vindo me buscar!

– Não dessa vez chefe. – Respondeu o russo. Pela primeira vez eu via o rosto dele depois dos incidentes. Ele parecia calmo como sempre.

Os alemães nos jogaram na “cela” apertada. Deixaram um soldado de guarda e saíram. Irlandês pôs a mão dentro da jaqueta e falou.

– Não podíamos ter sido pegos. Tenho uma granada aqui. Vou acionar e todos partiremos para a glória com o Senhor!

– Não. Por que eu sou ateu. – Disse o russo.

Eu estava tão assustado naquele momento que não consegui falar nada. O italiano balbuciava algo, mas também não saía algo audível.

– Adeus irmãos.

– Não espera! – Gritei.

O alemão falou algo com cara de brabo. E virou de costas, resmungando.

– Teoria comprovada. – Falou o Irlandês. – O imbecil aí não entende minha língua. – Minha vontade era matar aquele infeliz. – Agora é o seguinte! Nós temos o melhor sniper por aí livre. Temos que confiar que Bacharel vai conseguir nos tirar daqui. Isso antes que o emissário que foi enviado até o destacamento fale sobre nossa presença. Se eles não nos matarem, o que é bem provável, o Bacharel vai atacar de noite. Quando aquelas fogueiras estiverem acesas.

– Fogueiras? – Perguntou o russo.

– Sim. Ou eles são muito burros, ou estão tentando se afugentar algo. Mais provável que estejam afugentando, pois estamos a milhas da frente de batalha. Eu não vi o tal lobo, mas escutei o rosnado. Alguém viu?

– Não. – Respondemos juntos.

O dia foi passando e nem água nos foi oferecido. Já era quase noite, outro guarda apareceu para render o que ali estava. Esse parecia menor, mas mal chegou já mostrou seu lado, batendo por entre a grade com o cassetete, acertando a cabeça do italiano. Depois rindo como um psicopata. Os olhos cheios de lágrimas, esfuziavam.

– Você vai ser o primeiro que eu vou matar, nazista de merda. – Falou rindo o italiano. Nós rimos e ele respondeu:

– Você não vai matar ninguém traidor infeliz.

Aquelas palavras e a risada demoníaca que a sucedeu, gelou a todos nós. O sotaque do italiano era impercebível. Ou esse cara estava blefando ou eles conseguiram informações de nós. Nossa cara de surpresa nos traiu.

– Olha. Eles não estão mais rindo. Seus imbecis! O tenente Lans fala inglês melhor do que eu. Ele escutou todo o plano idiota de vocês. Esquadrão de sequestro? Vocês são uma piada! Eu vou matar vocês com esse cassetete e deixar os corpos para o wald hund!(Cão da Floresta). Só precisamos que o outro apareça e pronto. Como dizem os americanos checkmate!

Minha esperança tinha acabado de se findar naquele momento. Eu não seria torturado por informações, em compensação seria morto com um cassetete, como um animal. A cara de meus amigos também não ajudava muito. Todos eles sentiram o baque da notícia. As horas foram passando e o terror psicológico aumentando. O medo que Bacharel atacasse era grande, pois significaria o fim de tudo.

Já era meia-noite. Toda vez que alguém fechava os olhos, o porco alemão batia o cassetete na grade acordando. Enquanto ele soltava gritos em sua língua materna, uma silhueta se aproximou pela parte mais clara do descampado onde crepitava a luz da fogueira mais próxima. Era o tal Lans, que nos tinha ludibriado tão sabiamente. Ficou a alguns metros a da nossa cela olhando com cara de vitória.

– Boa noite caros amigos. Como podem ver pelo meu uniforme. Já estou recomposto de nosso encontro. Um pouco machucado pelo cão da floresta, bicho infernal. Mas nada grave só alguns arranhões. Vim lhes dar as notícias que não serão executados agora. Vamos levar vocês até o destacamento e lá o general vai decidir o que vai fazer com vocês. – A cara de desapontamento do guarda era gigante.

De repente uma luz noturna se fez no alto. Era a luz da lua cheia, que até agora se mantinha escondida sob espessas nuvens. Lans se virou para o guarda e disse algo em alemão. O guarda se moveu ao seu encontro e o amparou,

enquanto ele se ajoelhava. O que seguiu daí é horrendo. Barulho de ossos e carne se partindo. O uniforme limpo se manchando de sangue. Os gritos de dor e desespero. Os olhos brilhando num demoníaco dourado. A mão no pescoço do guarda, quebrando-o como um graveto. O corpo assumindo uma forma antropomórfica rasgando o uniforme de tecido resistente e liberando uma criatura horrenda com formato de homem com lobo.

Os gritos do antigo Lans trouxeram três soldados ao nosso encontro. Que foram terrivelmente despedaçados por garras e dentes afiados. O russo começou a forçar agrade tentando nos libertar do terrível destino. Foi aí que o monstro com a boca cheia de vísceras olhos para cela e foi ao nosso encontro.

Quando estava prestes a colocar as terríveis patas na grade um tiro acertou-o no meio da cabeça. O que o fez urrar e recuar. Mais tiros em sequência o que o afastou para a parte de entrada do acampamento. Olhei na possível direção dos tiros e enxerguei Bacharel se aproximando com um machado. Ele chegou já destruindo a tranca da grade e nos libertando.

– Peguem as armas desses coitados e vamos para o sul da floresta. – Nesse instante ouvimos gritos, tiros e mais urros. E ao longe um uivo pesado e prolongado. – Vamos logo! O outro está chegando.

Quando nos aproximamos do lugar de onde bacharel havia saído, vimos que ele não estava só. Mas sim acompanhado por um casal jovem, coberto de lama. Bacharel também estava sujo de lama, mas eu nem havia notado. O casal tomou a frente nos guiando por dentro da floresta. Seguimos por horas, a adrenalina não baixava. O medo daquele ser horrendo nos alcançar era sem tamanho. Quando nos demos conta estávamos perto de um riacho. O casal parou para beber água, e nós os acompanhamos. Irlandês olhou para Bacharel, e ele entendeu o recado.

– Pois bem. Eu entrei na floresta como vocês havia mandado. Mas não encontrei ninguém de imediato. Então tentei correr de volta e me perdi. Tentei me guiar pelas estrelas, mas mal dava para ver o céu. Foi aí que eu vi o cão. Arrastando o alemão com a boca, a mordida parecia ter ido fundo no ombro. Aí eu atirei no bicho. Ele soltou o chucrute e correu paro mato. O strudel já tinha desmaiado quando eu me aproximei dele. Quando eu coloquei ele em cima do ombro o bicho começou a voltar rosnando. Aí eu larguei ele e corri. E esses dois me acharam. Não falam inglês, acho que falam russo. Me cobriram de lama. E dormimos numa árvore. Acho que a lama atrapalha o faro do animal.

– Até aí tudo bem. Só que nos vimos o Lans se transformar naquilo que você atirou. – Falou o italiano tremendo.

– É só o que eu sei amigos. Aquele que eu encontrei com vocês era meio pardo. O da floresta que pegou o alemão era preto como a noite.

– O alemão é o pardo! – Vociferei.

– Calma francês. Não estou dizendo nada.

Enquanto esfriávamos os ânimos, Vodka conversava com o casal. Pelo visto eram realmente russos. Eles nos guiaram por um caminho onde escaparíamos das forças alemãs. Visto que nossa missão tinha fracassado, não tinha sentido ir até o destacamento. Nos deixaram milhas de um acampamento russo, onde fomos recebidos, averiguados e mandados de volta a Inglaterra para recebermos outra missão. Quando chegamos lá eu adoeci, fui dispensado por todo o serviço que já tinha prestado no esquadrão Lumnus. Tenho guardado com carinho a carta que recebi dos meus companheiros por todos esses anos. E mantido a promessa de nunca falar sobre o que acorreu naqueles dias.

Quando olho para meu peito ainda vejo a cicatriz da unha do animal que me empurrou naquela noite. Achei que tinha saído ileso ao seu feitiço, mas pelo visto o efeito só chegou mais rápido em Lans do que em mim. Sorte não ter me transformado no hospital e sim no porão de minha casa em La Valla. As mortes no vilarejo ficaram sem solução, mas eu sabia quem era o responsável. Por isso escrevo essa carta. Que será consumida pelas chamas. Assim como parte do meu cérebro será destruído por esta bala de prata que se esconde no tambor de minha arma. Demorou anos, mas finalmente descobri a forma de me libertar das cadeias que me aprisionam todas as noites de lua cheia.

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