Criptaremos

CRIPTAREMOS – A vida do homem comum

Boa noite amigos comuns,

 

Hoje temos mais um conto do Aloisio, parece que ele tomou gosto pela coisa! haha! então sente-se e aproveite.

 

“A noite chega e é sempre mais escura pouco antes do amanhecer, isso é, se você sobreviver até lá.”

Abra sua mente, apague as luzes e se tranque no quarto, pois agora é a hora do terror.

A vida do homem comum

Ricardo saiu de casa as 7h da manhã. Atrasado como por costume, ele correu até o ponto de ônibus, ultrapassando outros pedestres que calmamente caminham pela rua sem as mesmas preocupações. O dia vai ser uma merda. Não era um mantra, mas ele costumava pensar assim. Bem é quase um mantra matinal. Quando alcançou a esquina viu de relance o ônibus passar. Caceta. E mais alguns palavrões que saíram ao mesmo tempo em que ele pensava na desculpa e nos olhares do supervisor por mais esse atraso.
São 7h e 30min. O próximo ônibus passa. Ricardo entra. Ele conhece mais pessoas naquele horário do que no que deveria pegar todo dia. Cumprimenta o motorista, a velhinha maquiada(que deve ser dona de algum bingo), o cobrador, que fala:
– Não venho sexta?
– Não. — Ele tinha ido sim mas tinha pego o ônibus certo.
Desceu na estação de trem. Já são 8h e 15min. Entra no trem. olha pra todos os lados. Lugar vago. Senta. Caralho. Todo dia essa merda, Ricardo. Tu é um imbecil mesmo. Só mais um episódio. Só mais dez minutos do despertador na soneca. Quando tu vai crescer Ricardo?
– Tá preocupado demais. — Uma incrível pessoa aleatória ao seu lado falando com ele. Ricardo olha ao encontro da voz, preparando seu sorriso maquiado. Afinal ele era tudo, mas não era mal educado. A dona da voz(sim era uma dona), era linda. Olhos escuros. Cabelo escuro e curto. Pele branca. Alva. Parecia um fantasma. — Parece que vai ter um treco rapaz.
– Eu estou bem obrigado. Só estou um pouco atrasado pro trabalho.
– E é só isso?
– Bem, acho que sim. — Não que ele fosse se abrir pra uma total estranha, por mais que fosse linda. Seria suicídio social falar da merda que estava vivendo.
– Geralmente as pessoas se fecham mesmo, quando estão passando por problemas. Eu só queria ajudar.
– Não se preocupe. Agradeço, mas realmente estou bem. — O trem parte. Ricardo deveria estar as 9h no trabalho mas vai chegar com meia hora de atraso. Se o trem batesse agora eu teria a desculpa perfeita. Cala a boca Ricardo.
– Já imaginou se o trem bate? — Falou a moça.
– Isso seria horrível? — Ricardo engoliu em seco a surpresa.
– Bem. Nem todos aqui achariam. Alguém aqui pode estar querendo dar fim a essa vida sem sentido.
– Desculpe minha franqueza. Mas isso foi mórbido. E também eu mal te conheço. Não sei, mas… Não pega bem ser mórbido com que mal conhecemos.
– Me perdoe. Eu sempre sou mórbida. Hehehehe. — Essa frase, com aquele riso esquisito no final, ficou mais mórbido ainda.
Um misto de arrepio com fascinação passou pela espinha de Ricardo. A menina era linda, mas era mais esquisita que sua tia Rita, a solteirona que tinha um papagaio que cantava Noel Rosa. Então ele resolveu olhar pro chão, e fingir que ela não estava ali.
– Engraçado. — Nossa ela continua falando comigo. — Uma vida é resquício entre tantas vidas. Se olharmos diante do Universo, uma vida não é nada ou é pó. Nos sentamos em nossos lugares a mesa. Ocupamos nossas cadeiras no trabalho. Pagamos nosso acento em transportes. Tudo pra que? Nada.
Nossa. Além de mórbida é louca. Eu não vou olhar pra ela. Vou só concordar com a cabeça, olhando pro chão. Assim talvez ela pare.
– Mas tem segundos desse todo que valem a pena. — FALA SÉRIO? — Aqueles momentos que não estão programados. Aqueles momentos felizes. Que dinheiro não compra. E que não nos pagam pra fazer.
– Olha moça. Eu sou universitário com 25 anos. Eu ganho mal no meu trampo. Eu não tenho namorada. E eu to puto da vida. Você é tipo… muito gata. E em outro dia, que não fosse esse eu estaria te trovando. Aproveitando toda essa merda que você está falando aí. Fingindo que me me importo com a vida e o cacete. Mas hoje não. Hoje eu queria que essa merda de trem batesse. E eu fosse morar na puta que o pariu.
– Você tá muito revoltado. Não vi nenhuma desgraça na sua vida não. Além de que suas palavras fazem você parecer frívolo. O que não acredito que seja. Se fosse nem teria coragem de dizer tudo isso. — É acho que peguei meio pesado. Mas vou manter, pra ver se ela para.
– Não me conhece nem um pouco. Então não faça suposições.
– Eu conheço todo mundo. Porque os seres humanos são todos iguais. — Ela realmente é maluca. E já ta me assustando.
– Olha foi muito bom falar com você, mas essa é minha estação. Até outra hora. — Se Deus permitir eu nunca mais vou ver essa guria.
– Legal. Essa também é a minha estação. — FALA SÉRIO? Que raio de guria é essa? — A gente pode ir junto até a saída.
– Pode sim. — Afinal, eu não tenho escolha…
– Mas voltando ao que estávamos falando. Você realmente queria que o trem batesse? Heheheheh. — Por favor não ria desse jeito. Mulher assombrosa.
– Aquilo foi brincadeira. Quem quer morrer? É só drama diário. Você mesma falou que não viu desgraça na minha vida. Viu? Sem motivos pra morrer.
– Até porque não somos nós que decidimos quando, onde e como. HEHEHHEHEH.
– Olha. Não fica rindo desse jeito por favor. — Finalmente a saída da estação. Vou poder me livrar dessa esquizofrênica. — Bem. É aqui que nos despedimos. Até mais.
– Não creio que nos veremos novamente. — Ricardo franziu a testa e começou atravessar a rua. Mas se deu conta de algo engraçado.
– Eu tinha pensado em bater o trem antes mesmo de você falar…
Foi uma mistura de sensações. O olhar da moça ainda na calçada. Agora vestindo uma bonita capa preta e segurando ridiculosamente uma foice enorme. A sensação de ser empurrado por uma tonelada. O barulho ensurdecedor de uma buzina de caminhão. O despertador. A macio da cama. 6h e 15 min. Esse dia vai ser do caralho. Já é hora de novos mantras matinais.

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