Criptaremos

CRIPTAREMOS – Querido Diário

Fala pessoal,

Diário é uma agenda, geralmente de caráter íntimo, onde se fazem anotações que contém uma narrativa diária de experiências pessoais que é organizada pela data de entrada das informações. Um diário pessoal pode incluir experiências de uma pessoa e/ou pensamentos, sentimentos e segredos. Resumidamente é uma forma de guardar e dividir experiências com nós mesmos, sejam elas num futuro próximo ou em futuro mais distante.

“A noite chega e é sempre mais escura pouco antes do amanhecer, isso é, se você sobreviver até lá.”

Abra sua mente, apague as luzes e se tranque no quarto, pois agora é a hora do terror.

Querido Diário

Era uma fim de tarde de outono de 1995, quando Luciana conseguiu terminar a pequena organização de sua nova casa bom parte dela. Já havia se mudado a 6 meses, mas com a correria do seu novo emprego e adaptação a nova cidade a impediu de fazer antes além é claro da boa e velha preguiça. As próprias coisas ela já tinha arrumado agora ela ia decidir o que faria com as coisas que havia na casa antes dela se mudar e bom, ela decidiu fazer o mais lógico e racional que alguém poderia fazer, juntar tudo e colocar no sótão.

Apesar de serem poucas caixas, como ela estava sozinha o trabalho demorou um pouco e a noite logo chegou. Faltando apenas umas 2 viagens para terminar o serviço, já levemente cansada do sobe e desce, Luciana pegou uma caixa que por estar bem velha abriu-se esparramando tudo que tinha no chão, o que fez com que Luciana parasse os serviços e fosse fazer um chá, enquanto a água esquentava Luciana subiu as outras caixas deixando a bagunça para depois.

Com a xícara na mão ela encarou aquele monte de coisas esparramadas pelo chão, um monte de livros e panos pintados, ela ajeitou a caixa danificada com fita adesiva e começou o reempacotamento daquela variedade de encadernações que iam de A Condição Humana até Anéis de Saturno. Quando viu que tinha terminado, deixou seu chá de lado e pegou a pesada caixa e começou a sua última viagem, seria o fim de suas arrumações.

Ao dar alguns passos tropeçou em alguma coisa, já que a caixa a impedia de ver o caminho integralmente. Luciana meio irritada deixou o pacote de lado e foi ver o que estava atrapalhando o seu caminhar. Era um pequeno livro marrom, sem identificação com capa de couro desgastado, uma tira de pano envolvia a encadernação e acabava em um nó simples. Curiosa e com vontade de acabar com seu chá, Luciana pega o livro e senta-se com ele no sofá, desata o nó e o abre.

A primeira folha há uma anotação numa letra bonita, aparentemente feita a nanquim

Este diário pertence a Ana Luvissoto Padilha

Nascida em 19 de Abril de 1949

Uma grande mancha que parecia chá, cobria metade da primeira folha o que dificultou a leitura da data que havia sido escrita ali, 1962. Luciana se impressionou e até ficou feliz, tinha em mãos um diário de uma pessoa que nasceu muitos anos atrás. Então começou a lê-lo, pois a ideia de saber o que se fazia naquela época a animou – Será que tem algo romântico? – pensou. Mas logo todo o entusiasmo se foi quando se deu conta que a vida em 1962 não tinha muita coisa pra se ver além de arrumar a casa, o pai no novo trabalho e algumas visitas esporádicas a cidade.

– Como alguém pode se encantar por conhecer um damasco? –  Pensou enfadonha. Nada mudou muito nos anos seguintes 62, 63 e 64. Já sem paciência e com o chá no fim, Luciana foi para o que seriam as últimas páginas – Vamos ver onde essa guria parou – mais a frente algo chamou atenção.

18 de maio de 1965,

Querido diário, hoje aconteceu algo estranho. Era começo de noite quando escutei uma batida em minha porta, papai e mamãe ainda não tinham voltado da cidade por isso fui atender. Na porta havia um homem, bem apessoado, chapéu coco, um elegante terno, em seu bolso um lenço vermelho e trazia em seu ombro um corvo, nunca tinha visto um tão de perto, fascinante. Seus olhos eram profundos e quando olhou para mim, não sei….acho que foi amor primeira vista. Conde Andras é seu nome…ah diária como ele era belo, ele disse que voltaria pois tinha assuntos a tratar com meu papai.

– Opa era disso que eu estava falando – disse para si. Luciana ajeitou-se no sofá e continuou a leitura, pulou algumas partes até ver o nome Andras novamente.

25 de maio de 1965,

Querido diário, hoje o meu amor voltou. Andras tenho sonhado com você quase todos os dias, com esse seu olhar profundo, tenho certeza que ele me entende e sei que ele também sente algo por mim. Hoje quando ele veio, o peguei olhando para mim algumas vezes. Ele e aquele corvo passaram rapidamente aqui hoje ele falou com papai, a conversa pareceu calma, mas achei que papai parecia consternado, deve ser algo do trabalho…

Humm..,você está muito entusiasmada Srta. Luvissoto – pensou Luciana empolgadamente. Após ler algumas páginas do chove e não molha de Srta. Ana e Conde Andras, as coisas começaram a tomar outro rumo.

13 de abril de 1966,

Querido diário, hoje meu pai veio falar comigo. Andras meu amado lhe disse que pretende me levar em breve. Está sendo o dia mais feliz de minha vida, em breve serei a Sra. Andras. Achei meu pai um pouco triste, ele deve pensar que vai perder a filhinha dele, mas papai saiba que sempre te amarei.

Bom teremos um casório então, Conde e Condessa Andras… e o corvo é claro – conclui Luciana, já se preparando para o final previsível da história. Quando virou a página, viu que estava na última folha e todas que vinham depois estavam em branco – É acho que ela arrumou algo melhor pra fazer depois que se casou, vamos terminar com isso então.

“12 de junho de 1966

Diário, Meus Jesus salvador, Deus todo poderoso, estou escrevendo aqui o mais depressa que posso, antes que ele chegue, antes de Andras me buscar. Papai caiu em prantos hoje, quando perguntei o motivo ele finalmente me explicou o que o preocupava. Andras não é quem eu penso que é, ele não é nem mesmo… meu pai juntou todas as forças para me contar, me contar porque prosperamos tanto em tão pouco tempo, porquê os negócios foram tão bem…. ele chegou, ele está aqui pra me levar…. mamãe te amo e papai…eu te perdoou…. ele está na porta…. sua voz é horrenda, gutural…. senhor me aju….” 

Luciana deixou o copo de chá vazio cair no chão com o que acabara de ler – Que porra que aconteceu aqui? – sem saber como reagir ela ficou ali, imóvel, encarando a folha de papel por um tempo. Seu estado quase catatônico foi interrompido pela campainha.

Luciana se levanta e, com o livro na mão, vai em silêncio até a porta. Ela abre e na porta está um senhor bem apessoado,  com um chapéu coco, um elegante terno, em seu bolso um lenço vermelho e trazia em seu ombro um corvo.

Boa noite, meu nome é Andras muito prazer.

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