Criptaremos

CRIPTAREMOS – Esconde-esconde

Boa noite galera,

Ninguém sentiu falta mas depois de um hiato digno de Kentaro Miura, vamos tentar voltar (aos poucos)
“A noite chega e é sempre mais escura pouco antes do amanhecer, isso é, se você sobreviver até lá.”
Abra sua mente, apague as luzes e se tranque no quarto, pois agora é a hora do terror.

ESCONDE-ESCONDE

Fim de tarde, num bairro de subúrbio o silêncio típico daquele horário só é quebrado por alguns carros que passam esporadicamente, mas fora isso não há pássaros, cachorros ou qualquer ruído além do farfalhar das árvores.

Paulinho, estudante da 9ª ano do Colégio São Francisco vira a esquina de uma viela correndo, segura a mala com uma das mãos e olha constatemente para trás. Após virar a segue pela viela e assim que sai dela, pula o portão da primeira casa ao lado.

A casa que ele pulou no quintal é um sobrado com estrutura típica da virada do século, janelas fechadas e lacradas, paredes externas pichadas e tintura desgastada pelo tempo. Ele se esconde onde pode dentro daquele espaço do quintal externo, observando seus 3 algozes passarem correndo pela frente da casa.

Após alguns segundos ele resolve olhar pelo portão para ver se seus perseguidores já se foram, mas ele os vê ainda na rua.

Droga e agora, esses viadinhos vão ficar ai?

As circunstâncias que motivaram a perseguição, como toda a discussão adolescente, foi o apelido que o próprio Paulinho deu aos 3, que no dia resolveram se juntar e acertar as contas.

A GENTE VAI TE ACHAR – grita um dos garotos na rua

Paulinho, volta para o esconderijo e fica ali abaixado na esperança de que os 3 vão embora.

O brulho de uma porta abrindo chama a atenção de Paulinho que olha para trás assustado. – Pronto o dono da casa me pegou e os meninos vão saber onde estou – foi a única coisa que passou pela cabeça dele. Na porta da casa, aparece um garoto, blusa vermelha e calça jeans, não aparentava ter mais do que 8-9 anos ele olha para Paulinho encolhido, olha para rua e parece entender imediatamente a situação e faz um gesto para ele entrar.

Olhando a situação atual ele não pensa duas vezes e entra correndo na casa.

Nossa…obrigado…achei que eu ia apanhar hoje – Diz Paulinho ofegante enquanto vai em direção a janela para ver os garotos na rua – Sabe, não sei porquê eles resolveram vir atrás de mim, eu não fiz nada – Ele olha por um dos vãos da janela e os 3 estão parados na frente da casa.

Cacete, será que eles vão ficar ai muito tempo?

O menino de vermelho puxa a blusa de Paulinho que se vira – O que foi? – O menino de vermelho não diz nada, Paulinho olha com estranheza para o menino – Fala, o que foi? – Mas o menino não responde nada.

Ah pronto, voltei pra época do preto e branco, os 3 patetas lá fora e o Chaplin aqui dentro, você é mudo garoto?

O menino não faz sinal que sim nem que não, apenas dá nos ombros. Ambos ficam se encarando por um tempo

Seus pais estão em casa? – pergunta Paulinho, o garoto faz sinal negativo com a cabeça

Bom, eu não vou ficar aqui por muito tempo – Continua Paulinho que volta a olhar pela fresta da janela.

O menino mais uma vez puxa a roupa de Paulinho

O que foi agora mudinho?  – retruca já um pouco irritado

O menino não diz nada, só encara Paulinho.

Que que foi, você tá com fome? Tá passando mal? Quer brincar? o que diga logo moloque…

O menino encara Paulinho, faz que não com a cabeça uma vez, para, volta a fazer não com a cabeça, para e então faz que sim com um sorriso.

– Então você quer brincar isso? Ok! Vamos brincar de…. de… esconde-esconde, você sabe brincar de esconde-esconde?

O menino faz que sim com a cabeça

– Bom não precisa nem tirar a sorte, tá comigo, agora vai se esconder que daqui a pouco eu vou te procurar, vamos vai, corre 1, 2, 3, 4

O menino abre um sorriso e sai correndo, Paulinho se volta para a fresta e diz pra si – Que bom, assim eu tenho sossego e vou vazar daqui assim que esses três forem embora, quando esse pentelhinho descobrir que eu não estou mais procurando ele eu já vou estar em casa.

Passados uns 10 minutos os 3 garotos saem da frente do sobrado

Vou vazar daqui agora!

Paulinho então para e fica com um peso na consciência e pondera – Poh, é só uma criança…não vou brincar com ele só falar que eu vou embora.

LÁ VOU EU! – grita ele que então se vira, e que estranho, a sala que ele estava não tinha móvel algum e estava bem suja, empoeirada.

Como eu não reparei nisso?

Ele foi em direção a escada que dava para o segundo andar, mas ao olhar alguns degraus estavam quebrados a ponto de não ser possível subir.

Que tipo de pessoa mora aqui?

Então, foi em direção a porta que ficava embaixo das escadas e dava a um corredor, ele seguiu por ele e chegou ao cômodo que parecia ser a cozinha, somente uma velha geladeira com a pintura amarelada é que denunciava a função daquele cômodo.

Mas que porra? – exclama Paulinho já meio tenso

Ele atravessa a cozinha e continua seguindo o corredor que possui mais duas portas na lateral e um última porta ao final, apesar do medo ele abre a primeira porta e não encontra nada, só um quarto vazio, abre a segunda e nada também.

Sobrou a última porta, aquela no fim do corredor. Paulinho chega na frente dela, põe a mão sobre a maçanete a para por um instante o medo começa a tomar conta de todo seu corpo, as batidas do coração ditam o ritmo dos passos, as coisas parecem estar em câmera lenta. Paulinho olha a luz que atravessa a parte debaixo da porta, e ali de repente ele se dá conta, há alguém atrás da porta! e num lapso de esperteza e medo Paulinho diz

Amiguinho, já te achei! Estou vendo você ai atrás da porta. Agora é sua vez de me procurar fique ai que eu vou me esconder.

Após alguns segundos de um silêncio profundo,  sombra que estava atrás da porta se mexe e o silêncio que tomava conta do ambiente é quebrado por algo surreal

– UM, DOIS, TRÊS… – Uma voz grave, profunda que parecia vir de lugar nenhum e de todo lugar ao mesmo tempo inicia uma contagem crescente.

Paulinho se vira e anda o mais rápido possível, ele passa pelas duas portas no corredor, a cozinha e a sala enquanto escuta a voz vinda de todos os cômodos.

– OITO, NOVE, DEZ…. LÁ VO… –

Ele nem terminou de escutar a frase característica do fim da contagem pois fechou a porta da sala nesse momento, ele pulou o portão e correu o mais rápido que pode enquanto olhava para trás e deixava aquele sobrado assustador para trás, as paredes pichadas, as janelas trancadas e a pintura desgastada pelo tempo.

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