• Papo Sério

    Abraço Corporativo 2.0: Se está num grande jornal, então é verdade?

     

    Para quem ainda não viu o documentário ‘O Abraço Corporativo‘, do jornalista Ricardo Kauffman, ele está disponível gratuitamente aqui.

    Apesar de eu recomendar que todos vocês assistam para compreender com mais profundidade aonde eu quero chegar com esse texto, vou dar um breve resumo do que se trata o documentário:

    O Ricardo, estando no meio jornalístico (redações, salas de imprensa e etc.), percebeu um padrão interessante e perigoso: As matérias estavam sendo feitas cada vez mais com menos cuidado, sem muito “rigor investigativo”. Ou seja, as histórias  estavam chegando nas redações praticamente prontas para serem publicadas e a pressão pela quantidade de informação necessária para fechar a “pauta do dia”, acabava “deixando passar” muita coisa sem a devida verificação de fontes e, consequentemente, se essa coisa era real ou não.

    Todo documentário se baseia então em uma “fake news” criada pelo Ricardo, com a ajuda de um ator, que acabou viralizando e se tornando uma  espécie de verdade, devido principalmente pela “chancela” de grandes jornais e portais da internet. Eles fizeram um experimento onde o ator encarnou um personagem, Ary Itnem, que era representante da CBAC (Confraria Britânica do Abraço Corporativo), uma entidade também fictícia, que pregava uma “filosofia espiritual” onde as pessoas deveriam se abraçar mais dentro do mundo corporativo para reduzir alguns aspectos ruins da vida moderna, como o stress e a carência. Após criarem um site falso da corporação e viralizarem um vídeo no YouTube, o “consultor de RH” Ary Itnem passou a ser chamado para diversas matérias e entrevistas em rádios, televisões, jornais e revistas para explicar seu trabalho e sua filosofia do abraço.

    Um detalhe: Ricardo verificou isso em 2004 e lançou seu documentário em 2010. Na época, estávamos ainda engatinhando em relação ao potencial de geração de informação e canais de comunicação que temos hoje, não só pela expansão do acesso a internet, com a popularização dos smartphones, com a expansão da cobertura e barateamento da internet móvel, mas também pelo surgimento das redes sociais e dos mensageiros.

    Se em 2004 já era relativamente comum um jornal ser “passado pra trás” por algum espertinho ou algum oportunista, imagine hoje, onde virtualmente qualquer individuo pode ser considerado um “criador de conteúdo” e ter uma base de seguidores em suas redes de contatos. Some a isso a contínua degradação do papel do jornalista como uma fonte confiável de informação, uma vez que a informação passa a ser acessível literalmente em tempo real, e temos uma situação desconfortável em nossas mãos.

    Como sabemos, para que empresas possam se manter funcionando e pagando seus funcionários, elas precisam de lucro. Tivemos recentemente um desligamento expressivo na Editora Abril, com o fechamento de diversas revistas que já não estavam tendo a tiragem necessária para atrair anunciantes e manter as contas no azul. Jornais em papel e revistas estão cada vez mais migrando para o mundo virtual, observando seu futuro no “mundo físico” cada vez menor e para nichos específicos.

    Com isso, observamos muitas fontes tradicionais da “velha mídia” se adaptando para sobreviver. Indo para outros formatos, colocando anúncios e apostando nos “ads” virtuais, buscando assinantes virtuais com seus “paywalls“, forçando a barra com os “clickbaits“, indo para matérias mais sensacionalistas ou ainda, infelizmente, vendendo sua reputação em matérias com um viés claramente ideológico/partidário.

    Na madrugada da última quinta-feira, dia 18, a renomada jornalista Patrícia Campos Mello soltou uma bomba no site da Folha de São Paulo, que também sairia na capa do jornal mais tarde, pela manhã: Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp.

    Na matéria, Patrícia é categórica ao afirmar que existem empresários bancando uma campanha contra o Partido dos Trabalhadores e, consequentemente, a favor de Jair Bolsonaro. Porém, lendo toda matéria, não temos evidência alguma do que a manchete declara. São apenas suposições da jornalista e apesar dela usar afirmações como “a Folha apurou” e “entre as empresas compradoras está a Havan”, a matéria não trás nenhuma apuração ou prova de que o empresário esteja envolvido de fato com a prática ilegal. Pelo contrário, todos com quem a reportagem entrou em contato afirmaram desconhecer a atividade relatada.

    Poderia ser apenas mais uma matéria com uma manchete sensacionalista para o jornal ganhar algumas visitas ou vender mais alguns exemplares nas ruas, caso esse fato não repercutisse automaticamente e de forma viral e estrondosa pela militância esquerdista na internet. Logo na sequência da matéria publicada, a hashtag #Caixa2DoBolsonaro (em alusão ao fato dos supostos pagamentos destas empresas não estarem declarados oficialmente na campanha do candidato do PSL) rapidamente se tornou Trending Topics na Twitter, sendo levantada por todos portais que são declaradamente de viés lulopetista, como a Mídia Ninja, Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, além de vários influenciadores virtuais de esquerda que atualmente estão sendo investigados por terem participado do famigerado “Mensalinho do Twitter“.

    Uma notícia “bombástica” como essa tem sim todo potencial e até mesmo o dever de se espalhada pela internet, mas o que mais me chamou a atenção foi a agilidade e coordenação com que ela se espalhou, fora o fato de todas as demais matérias terem utilizado como fonte a reportagem da Folha que, repito, não trazia uma sequer evidência da veracidade da informação. A sensação que tive foi que todos simplesmente abraçaram a especulação como uma verdade universal e absoluta, somente pelo fato da mesma estar divulgada na Folha. Ninguém se deu ao trabalho de questionar as fontes da jornalista, de entrevistar os envolvidos na reportagem novamente, de ir mais fundo nos detalhes do que foi reportado, bastou copiar a matéria, só acrescentando “segundo Folha” na manchete.

    O mais preocupante, na minha opinião, é que o caso não repercutiu apenas dentro da mídia esquerdista ou com seus influenciadores suspeitos, a matéria literalmente se espalhou pelo mundo, chegando no The Guardian, no New York Times, no El Pais, no Le Monde, e diversos outros portais menos expressivos. Apesar de alguns deles, como o NYT, trazerem a notícia num tom preliminar, usando palavras como “acusam” e “suspeitas”, todas essas matérias se baseiam na matéria da Folha de São Paulo, que por sua vez, se baseia em pouco ou nada.

    Não bastasse todo esse potencial “estrago eleitoral” que essa matéria não fundamentada pode eventualmente causar ao candidato Jair Bolsonaro com o eleitorado que ainda está indeciso, ela também fui utilizada fortemente como arma pelo seu adversário Fernando Haddad. Desde quinta cedo, Haddad usa a capa do jornal como se fosse uma verdade incontestável, chegando a sugerir coisas malucas como a prisão preventiva de Bolsonaro, do dono da Havan, Luciano Hang, a cassação da chapa Bolsonaro/Mourão, novas eleições e etc. O TSE foi praticamente obrigado a abrir uma investigação devido a toda essa repercussão que a matéria teve, porém o próprio ministro Jorge Mussi disse que o pedido do PT se baseia em reportagens jornalísticas e que “não permitem neste momento demonstrar a veracidade das suspeitas”.

    Muito me espanta que todo esse “ataque coordenado” tenha partido da Folha de São Paulo, o jornal de maior circulação do país e que se orgulha de possuir um ‘Manual da Redação‘, que rege não apenas seus jornalistas internos, mas também é utilizado por diversos outros jornais menores e profissionais autônomos. Na mais recente edição, o Manual dá dicas de como se portar nas redes sociais, destaco algumas delas:

    Patrícia Campos Mello, a repórter que assina a matéria que começou toda confusão, parece não ter lido o tal do Manual…

    Antes que venham me atacar: Não estou dizendo neste texto que o Bolsonaro é inocente das acusações e nem “passando pano” para ele, estou apenas relatando a ordem com que os fatos aconteceram e como isso me chamou a atenção. Mesmo que as provas venham a ser obtidas no futuro, o erro do jornal ao publicar uma matéria antes de obter qualquer tipo de evidência concreta é preocupante, ou pelo menos deveria ser preocupante, independente de qual “lado” você está.

    Enfim, para finalizar a questão, gostaria de deixar alguns apelos a todos: Leiam todas as matérias, não compartilhem notícias apenas pelas manchetes das mesmas, procurem entender o viés ideológico da fonte que vocês estão lendo e, se possível, tenham mais do que uma fonte e com vieses diferentes. Discutam a informação de forma saudável com colegas antes de utilizar a informação para acusar ou atacar alguém, talvez vocês tenham interpretado a mesma de forma errada. E, por fim, não acreditem em algo só porque esse algo foi publicado em um “renomado jornal”, uma vez que até eles podem eventualmente errar, ou pior, tentar te enganar.

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