Quadrinhos

Romanticamente Apocalíptico [00]

O recomeço.

Essa maravilhosa série merecia ser repostada, com o cuidado de incluirmos os novos capítulos iniciais introduzidos pelo criador original e todos seus textos complementares.

Romanticamente Apocalíptico se passa num futuro pós apocalíptico, onde acompanharemos Charles Snippy, um dos últimos seres humanos “sãos” da Terra e seu encontro com o Capitão, uma entidade que não sabemos definir com clareza, e Piloto, seu fiel escudeiro.

Segue o episódio 00, inédito no Capinaremos:

RA00
(clique na imagem para ampliá-la)

SNIPPY

 

“EU SOU A CAPITÃO,
GLORRIOSO GOVERRNADOR DE TODAS AS COISAS DE CAPITÂNIA!”

Com isso, o Capitão fez um gesto em direção a terra desértica congelada em uma longa, pausa dramática.

“CONTEMPLE… CAPITÂNIA! VOCÊ SE ENCONTRRA EM UMA PRRÓSPERO NAÇÃO PARRADISÍACA MERRECEDORA DE AMORRR! PARRABÉNS!”

Eu levantei uma sobrancelha, imaginando qual pergunta seria melhor fazer primeiro. Uma das lentes do meu Óculos-Emotivo para Guias Turísticos da Zona Morta da Directorate se levantou, imitando a minha expressão facial. Quem diria que meus Óculos-G “movido a piscadas” iria funcionar tanto tempo quando todos os outros eletrônicos haviam desistido?

“Então, de que devo chamá-lo?” acabei perguntando.

“TOLO COMPANHEIRRO! EU ACABEI DE FALAR! EU SOU A CAPITÃO! MAS EU POSSUO MUITOS OUTRAS TÍTULOS PICANTES APLICÁVEIS: SUA GRRAÇA, DAMA DO LAGO, SUA EXCELÊNCIA, SENHOR INCRRÍVEL, O TODO PODERROZO, OU MEU SOBERANO… MAS ‘O CAPITÃO’ É UM TÍTULO SUCULENTO O SUFICIENTE!”

Continue lendo! ;D

Encarei o autoproclamado soberano incrédulo, parecia que “O Capitão” estava falando sério mesmo. Alguém aceita um pouco de radiação extra com suas batatas fritas? Eu decidi que não era importante. Soberano? Governador? Dama? Capitão? Tanto Faz.

“O fim do mundo não é o melhor momento para virar exigente com quem você andará junto.” Eu pensei. “Além disso, um pouco de loucura não poderia machucar ninguém, certo?” Minha própria mente cansada estava agindo de forma estranha. Por alguma razão esquisita eu sequer conseguia começar atribuir um gênero ao Capitão, não importa o quanto eu pensasse sobre isso. É como se houvesse algo errado com meu cérebro, sempre que eu pensava sobre isso, meu padrão de pensamento pulava um movimento e simplesmente se acomodava em “Capitão”. Eu arquivei dentro de “possível câncer cerebral/envenenamento por radiação/exaustão extrema” e segui em frente.

“Meu nome é Charles Snippy.” Eu disse, sorrindo.

Esse ser enigmático usava um respirador, como todos os humanoides na terra deserta. Mas este era diferente. Esse parecia captar a luz de tal maneira que ele sempre aparentava estar sorrindo. Dando pancadinhas ponderadas com um dedo, O Capitão girou como em um palco de balé.

“SNIPPY, HMM?
SNIPS, SNAPS, SNOOPS, SNEEEEPZ, SNIPOU, SNAPPER, SNIPPING, SHNIPPENG, ZSHNIPPEH, SNOPPEH, SNAIPPEH, SNIPPEH!”

O Capitão cantarolava, testando numerosas variações de meu nome. Eu apenas fiquei lá, ouvindo aquele discurso interminável, perguntando quantas variações mais de meu nome poderiam existir.

Notando meu silêncio, repentinamente, O Capitão me abraçou com força e proclamou:

“NÃO SE PREOCUPA! CAPITÂNIA OFERRECE TRRABALHO ATÉ MESMO A UMA INSIGNIFICANTE INDIVÍDUO SEM EXPERRIÊNCIA COMO VOCÊ! ORRRAS, VOCÊ PODERIA SER O CANDIDATO PERRFEITA PARA MINHA DIVISÃO DE CORRTADORES ONDE UMA VAGA ACABOU DE ABRIR, DEVIDO A CIRCUNSTÂNCIAS INFELIZES. NÃO É O PRÓPRIO KARRMA QUE O TROUXE AO MEU ESCRITÓRIO, COM UM NOME TÃO APROPRIADO*?” 

“Circunstâncias infelizes? Karma?” Eu murmurei.

“PIANOS CAINDO NÃO ACERRTAM DUAS VEZES! OU ACERTAM…?”

O Capitão falou olhando pro céu, como esperando algo extraordinário acontecer. Olhei para o Capitão e então, também, olhei para cima. Nada estava lá exceto nuvens de tempestade de neve, espessas, cinzas. Nós ficamos em silêncio parados, apenas encarando o céu, por o que pareceu vários minutos.

“Podemos ir agora?” Perguntei, me sentindo um pouco embaraçado.

“SHHH. Shhhh…”
O Capitão me silenciou.
“VOCÊ NUNCA SABE QUANDO A PIANO IRRÁ CAIR NOVAMENTE!”

“Certo” eu suspirei. Chacoalhando minhas pernas cansadas.

“TEMOS DE PARTIR!”
O Capitão girou de repente.
“EU NÃO APROVO O OLHAR DAQUELAS NUVENS!”

“Sério?” Sussurrei com preocupação, pensando em quão danificada estava a sanidade do Capitão.

“AH, MAS EU TENHO A SOLUÇÃO!”
O Capitão continuou, e indo fundo no bolso de seu casaco preto, puxando para fora o que parecia… arroz branco.

“Huh” eu disse enquanto O Capitão atirava o arroz para a frente como se isso fosse apenas uma festa de casamento alegre.

“ADIANTE! DEVEMOS SEGUIR A TRRILHA DE ARROZ, SENHOR SNIPPY! MAS ANDE SUAVEMENTE! MUITO SUAVEMENTE!” O Capitão começou, e marchou em frente, me puxando junto.

No que eu me meti…?

 

P.S: *(“snippy”, em inglês, remete a “cortador”)

Agradecimentos:

Alexius, pela sua brilhante criação;
Aos apoiadores do Capinaremos, que atingiram a meta para o retorno do RA;
Felipe Dallagnol, pela tradução do texto deste capítulo.

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