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Romanticamente Apocalíptico [0B]

A saga continua!

RA00B

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SNIPPY

 

Apenas com a ajuda do Capitão que eu tive a capacidade de caminhar. Meus músculos doíam e minha face estava dormente, enquanto minhas pernas afundavam até as canelas naquela neve profunda, enquanto isso, as botas do Capitão aparentemente mal deixavam marcas. Eu arquivei este fato sob minhas desilusões relacionadas a meu cansaço.

A fadiga e a tontura faziam com que eu quisesse deitar, mas o Capitão me segurava firmemente e me mantinha em pé. Ocasionalmente, o Capitão decidia entrelaçar nossos braços, como se nós fossemos um casal feliz fazendo uma caminhada amável pelo parque.

Eu pisquei momentaneamente e apaguei.

Quando abri meus olhos, eu nos vi caminhando pela periferia de Eureka. Uma constatação sem sentido, já que não restava nada daquela megacidade-continental, o mundo que uma vez conheci  foi consumido pela poluição da Zona Morta, levemente achatado e derretido pelo holocausto termonuclear e congelado solidamente pelo inverno nuclear.

Conforme nós caminhávamos, o Capitão apontava para algumas ruínas e as nomeava, como “PONTO DE REFERÊNCIA DE MÁXIMA PROEMINÊNCIA” e “AGÊNCIA DE CORREIO RECEBA-SUA-CARTA-ONTEM DE CAPTÂNIA” ou então “MERCADO DE FRUTAS SUCULENTAS DE CAPITÂNIA”.

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Eu mal podia encontrar forçar em mim para manter o foco. Aquela sensação verdadeira de esperança que senti quando de forma completamente cética peguei na mão do Capitão para ser ajudado foi substituída. Neste exato momento, eu estava apenas cansado, com frio e muito preocupado sobre o estado mental do meu “GRANDE EMPREGADOR” que acabou de me oferecer “DOIS E MEIO POR CENTO DE DESCONTO NAS LOJAS SELECIONADAS DE CAPITÂNIA”.

Ser esfaqueado não é algo que eu desejasse, e as divagações do Capitão faziam com que eu me sentisse inquieto, assustado e confuso.

De repente, o Capitão deu uma parada. Eu quase caí de cara no chão… quase, se minha companhia não tivesse me segurado com uma pegada parecida com uma garra de fero. Erguendo meus olhos cansados, eu olhei para aquele deserto nebuloso e coberto de neve. Aquela área não era diferente de todas as outras que eu estive; ruínas, restos carbonizados de uma praça da cidade e muita, mas muita neve. Eu me perguntava se o maluco do Governador de Capitânia havia lido minha mente, pois ele decidiu me conceder uma soneca na neve. De fato fez muita pouca diferença pra mim neste ponto. Mas eu apreciaria se o Capitão fizesse isso antes, já que meu corpo estava se desligando.

“BEM VINDO A MINHA CASA!”
O Capitão apontou pra frente, onde havia uma casinha de cartolina coberta em uma profunda camada de neve.

“Você está brincando, certo? Você vive nisso?” Eu observava o micro-domicílio.

“AH, MAZ É BEM MAIORRR POR DENTRRRO!”
O Capitão respondeu minha dúvida. Enfurecidamente virei de costas, contemplando as más escolhas da minha vida.

Enquanto eu amuava, o Capitão lentamente se aproximou de um sino pendurado na lateral da mini-casa e o tocou. Assim que o sino tocou, ouvi sons de portas batendo seguido do que pareciam passos em uma escadaria e também sons de vidro se quebrando de lá de dentro. Eu, mais uma vez, fiquei observando a mini-casa em total descrença.

Um capacete antiquado, que provavelmente já pertenceu a um museu de aviação emergiu de uma chaminé de papelão, girando em nossa frente. Logo em seguida, um par grande de lentes verdes apareceu.

“CAPITÃO! BOM TE VERRR!” A cabeça falava com uma voz alta, flutuante e masculina. “MASSS O QUE É IZTO?” Uma luva de couro saiu da janela, apontando pra mim.

Ele não deveria usar ‘Quem’ ao invés de ‘O que’? Eu me perguntava. E porque diabos ele está gritando?

“EZTE É NOSSO NOVO RECRRRUTA!” Aquele que respondia por Capitão declarou,
“EU DESCOBRIACHEI ELE NO PARRRQUE, TIRANDO UMA SONECA EM MIENHAS LINHAS PETÚNIAS DE NEVE!”

Estava muito cansado pra questionar a falta do senso de verdade naquela declaração, eu mal soltei um murmúrio incompreensível que rapidamente se tornou em um suspiro de cansaço.

Fazendo carinho na cabeça com óculos com lentes verdes, o Capitão começou a passar as instruções:
“PILOTO, EZTE É O SENHORRR SNIPPEY, NOSSO MARAVILHOSO NOVO ESTAGIÁRIO EM CORTES!”
“SNIPPY, EZTE É NOSSO PILOTO RESIDENTE, LITERALMENTE UM CIDADÃO MODELO!”

A cabeça do Piloto me encarou por um bom tempo e de forma dura, parecendo me pesar e me avaliar com seu olhar. De alguma forma aquilo parecia perfurante e julgador, mesmo através daquela antiguidade de aviador.
“POR QUANTO TEMPO ELE VAI FICAR, CAPITÃO?” a próxima pergunta reverberava pela chaminé.

“BEM, ATÉ A PRÓXIMA SEGUNDA… E PARA SEMPRE DEPOIS DISSO.” O capitão disse em um tom meio ausente.

A cabeça na chaminé não parecia ter gostado, “PORQUE ISTO ESTÁ ACONTECENDO, CAPITÃO?”, perguntou o Piloto de forma ácida, “EU FIIIIIIZ ALGOS ERRADO? NÃO SOU SUFICIENTES?”
O Piloto me lançou um olhar furtivo mais uma vez, resmungando a contragosto enquanto sua cabeça descia pela chaminé, desaparecendo com um olhar de infinita tristeza.

“VOCÊ NÃO DEVE MONOPOLIZAR A GRANDIOSIDADE DO CAPITÃO, PILOTO,” o Capitão se sentou e olhou por uma pequena janela, falando em um tom gentil e ao mesmo tempo escaldante, “EU DECIDI AUMENTAR A ESTATÍSTICA DA POPULAÇÃO DE CAPTÂNIA E O SENHOR SNIPPY AQUI É UMA PARTE IMPORTANTE DE TAIS MULTIPLICAÇÕES E LARGAS EXPANSÕES.”

“EU ACHO… QUE SE É DE FATO UMA NECESSIDADE VERDADEIRA. NÓS DEVEMOS ABRIR ESPAÇO PARA TAL INCONVENIÊNCIA INFELIZ.” A voz triste do Piloto ecoou de lá de dentro seguida de um suspiro.

Então, o Capitão se levantou, veio até mim e começou a me arrastar pra dentro da casa de papelão.
“NÃO SE PREOCUPE SENHOR SNIPPEY, EM BREVE VOCÊ ESTARÁ EM CASA E SENTIRÁ CONFORTÁVEL COMO SE ESTIVESSE NA CHUVA!”

Eu não tinha energias remanescentes pra resistir, mas eu tinha uma leve impressão de que as coisas iriam dar errado pra mim…

RA00B2

Agradecimentos:

Alexius, pela sua brilhante criação;
Aos apoiadores do Capinaremos, que atingiram a meta para o retorno do RA;
Marcos Ferrs, pela tradução do texto deste capítulo.

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