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Devaneios – Um ano diferente

devaneios
Tosse.
– Faltam 02 minutos para meia noite, meu herdeiro.
O olhar ríspido de 016 deixou claro seu nojo pelo idoso vestido com um avental branco, o mesmo descansava na cadeira de balanço marrom e rachada.
– Velho, você teve sua chance e agora eu terei a minha, é o terceiro milênio que eu apareço e desta vez eu não vou falhar, não vou!
O riso engasgado do senhor calvo e seu sorriso torto perturbaram o jovem na sua frente. Uma gota de saliva escorreu por sua boca até acertar seu avental e manchar-lo. Como uma piada de mau gosto, a leve brisa alisou o rosto dos dois e fez com que as árvores chacoalhassem ao som da morte, a morte a espreita, ano após ano buscando um por um os guardiões. A escuridão da noite tomava conta do local, a luz do lampião pendurado a direita do jovem rapaz dava uma energia fantasmagórica ao recinto.

– Ah, meu querido… Você vai entender que o nosso tempo acaba, nós não temos outra chance, nós não podemos consertar nossos erros, os humanos podem… Os humanos sobre sua proteção podem, eu vou nessa, mas eles ficam, comemorando minha morte e a sua chegada…
– Você sempre foi um tolo, 015, olhe como você está acabado. Quais foram suas realizações? Ainda está seguindo os planos de 996, assim como os anteriores? 012 ficou ansioso o período inteiro pelo que ele dizia ser o fim do mundo, e não deu em nada!
– Nada? 016, não cometa meus erros. Cumpra sua metas agora, você tem 366 dias para isso, você tem um dia a mais! FAÇA ISSO, POR MIM, POR NÓS, PELOS QUE VIRÃO PELOS QU…
O tapa acertou a face direita do idoso e que deixou sua dentadura escapar e acertar o chão. Um relâmpago iluminou a clareira, a cabana e os olhos amarelos de 016. Olhos determinados.  015, por sua vez, sacudiu a cabeça atordoado com a agressão, sua bochecha flácida avermelhada, virou seu rosto devagar para o jovem e olhou com calma para a arma empunhada pelo rapazote.
– Você pode, sabe que pode ser melh…
-VOCÊ NÃO SABE DE NADA! VOCÊ TINHA ANSEIOS, VOCÊ TINHA PLANOS! VOCÊ DISSE QUE TUDO SERIA DIFERENTE, 015! E FOI? NO FINAL VOCÊ É SÓ MAIS UM!
– 016, você está contando o que me fez feliz e o que me deixou triste? Não é dessa forma que crescemos…
– É dessa forma que os humanos agem.
O ranger da cadeira assustou dois pobres ratinhos que passavam mais a frente, o gemido do senhor ao se levantar apoiando-se na bengala velha fez com que 016 desse um passo para trás, seu sobretudo preto arrastando na grama velha, sua pele jovem mostrando marcas de um tempo sofrido.
– Você faz parte dos humanos, 016, todos eles, é por isso que voltamos uma vez por milênio. Você depende dos humanos, você precisa lutar por eles…
-CALA A BOCA, SEU MERDA, SUA HIPOCRISIA ME ENOJA! EU LEMBRO QUANDO VOCÊ – o tapa desta vez acertou a face esquerda do senhor que por pouco não despencou no chão – CHEGOU AQUI! EU LEMBRO QUANDO VOCÊ TORTUROU 2014! VOCÊ É CRUEL! VOCÊ FOI CRUEL! ESSE FOI SEU ERRO!
Com sua fúria incontrolável, 016 chutou para a esquerda a bengala do senhor a sua frente, o que o fez cambalear e cair de quatro no chão acertando o mesmo com sua face. A grama velha voou e se prendeu na pele do homem. O suor escorria pela sua testa, sua boca seca lhe causava ânsia. Tremulo, 016 apontou seu revolver para a cabeça do senhor:
– 015, eu não vou falhar, eu tenho um dia a mais de período pra isso.
– Você não é especial, nenhum de nós é, 014 não era, eu precisei fazer ele pag…
– COM TORTURAS? VOCÊ CHEGOU DIAS ANTES APENAS PARA FAZER-LO SOFRER! Eu posso ser especial, basta os humanos quererem, eu não sou maldoso como você, babaca…
– Você não entendeu, eles não querem, eles nunca querem – as mãos do velho se fecharam sobre a grama seca – eles tem planos, eu adoto esses planos, mas eles nunca o seguem!
016 ajeitou seus cabelos para trás e a luz do luar revelou uma lágrima que escorria sobre seus olhos:
– Temos 12 segundos…
Os olhos do senhor de arregalaram e ele bradou em desespero.
-NÃO PRECISA SER ASSIM, 016, NÃO PRECISA!
Um suspiro veio de algum lugar, talvez de 016, ou quem sabe do moribundo velho. O jovem com seu polegar removeu a trava da arma.
– Precisa.
Um som seco tomou-lhe os ouvidos. O estampido que a arma produz ao ter o gatilho pressionado uniu-se ao dos fogos ao note, o brilho incandescente e colorido dos fogos desenhavam um céu antes negro. A bala acertou a nuca do velhote que caiu no chão com um baque, o sangue logo cobrindo toda a grama antes seca. 016 ficou encarando o cadáver que estava aos seus pés, seus sapatos sociais cobertos pelo sangue de sua vítima.
– O seu erro, velhote, foi não motivar-los. As pessoas tem desejos, tem anseios, tem vontades diferentes. As pessoas querem e podem. Se você quer, você pode. A força de vontade pode nos mover…
O barulho de fogos ainda dominavam a cena. Cruel e irônico. O ano começa com uma morte, uma dominação e uma desistência. O ano começa com renovação, idéias e vontades.
O ano começa com seus sentimentos, suas emoções.
O ano pode ser diferente.
Mas você tem que querer.
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