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Devaneios – levemente suicida

devaneios

 

Você está sentado.

 

A sala com uma penumbra agradável, iluminada apenas por um candelabro fraco a sua esquerda, na escrivaninha que também porta uma arma. Uma .38 velha, foi o máximo que você conseguiu comprar com seu fracasso. O ventilador de teto gira devagar, assim como sua velocidade de pensamentos. O casebre de madeira era convidativo para uma atitude de coragem e exigia uma decisão. Seu olhar vagaroso percorreu o cômodo incomodo, sua boca seca entreaberta respirava sabendo que aquilo logo acabaria, o tapete puído sobre seus pés era ignorado enquanto começava seu processo de destruição, com o sangue que mancharia seu desenho comum.


A arma já estava em sua mão, não é como se você quisesse que ela estivesse lá, mas ela estava. Como uma velha amiga esperando para livrar o mundo de sua derrota, esperando para expurgar da existência tamanho saco de estrume. Sua inutilidade não permitiu que você pensasse em uma forma de não dar trabalho para os nobres homens que recolheriam seu corpo inerte e moribundo.
Seu indicador estava alisando o gatilho da arma que adentrava sua boca de forma erótica, um abuso que a morte gostava de apreciar, o gosto do metal em sua língua e logo da pólvora espalhada sobre seus dentes estragados. Bang. Você o puxou sem calcular, a munição saiu pelo cano da arma e a fagulha da mesma montou um sorriso no chumbo. Você não teve tempo de registrar a dor ou o gosto queimado de sua carne, do metal quente ou do sangue após sua ligação vertebral ser rompida. Sua vida não passou diante dos seus olhos, você não tinha vida. O conhaque antes bebido agora esperava em seu estômago pela regurgitação natural. Sua parede com uma mancha vermelha simulando um breve quadro de arte moderna. Seu tapete molhado sentia seu corpo caído, corpo esse que poderia ser mais útil. Mente essa destruída que poderia ter seguido suas vontades, e a única que o fez levou a mesma a destruição.

 

Sentir o projétil disparado pela arma penetrando o crânio e destruindo todos seus sonhos e suas inspirações. Sentir ele cobrindo sua alma com as trevas e envolvendo seu olhar na mais profunda escuridão.

 

Talvez a morte não seja a válvula de escape para a sua dor, talvez querer morrer seja o motivo de você sentir ela.

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