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Devaneios – O limite do amor

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Cada um ama à sua maneira. Cada um se apaixona pelo que quer, mas… Até onde o sacrifício do amor vale a pena? Até o infinito? Até você e cansar? Até o amor não lhe dar tanto prazer? Ou quem sabe, até o fim de sua vida?

Até onde você quer estar tanto com alguém? Talvez as nuvens possam te ajudar.

O céu, azul e glorioso cobria toda a terra e a protegia contra as agressões do sol. O sol as vezes era impaciente e seu carinho pelos seres humanos era maior que qualquer coisa que já pudesse ter sentido. O Planeta Terra, grande demais, não permitia que o sol acariciasse todos humanos de uma vez, então girava de duas formas diferentes para que o sol pudesse contemplar todos humanos.

 

Mas esta história não é sobre o sol e seu carinho sádico pelos seres humanos. Está história é sobre um amor sem contato, sobre um amor impossível. Você já parou para pensar se o céu se apaixonasse pela terra? Isso mesmo, se o céu se apaixonasse pelo chão? Bom, em minhas viagens pelo mundo eu descobri que isto aconteceu.

 

O céu observava o chão todos os dias, calmo e impassível como sempre foi, seu azul esplendoroso jamais mudaria com o passar dos anos, as nuvens as vezes ficavam na sua frente e para quem o olhasse de baixo ele seria cinza, mas ele continuava azul, o céu era azul. Gotículas de água? Não. O céu era azul.

O solo, por sua vez, cinza, marrom, rosa, preto, suas cores variavam, mas ele ainda era o mesmo, o chão mantinha o mesmo padrão, mantendo todos os itens acima dele presos através de sua parceria adquirida no ano de 2.4585.2269 A.C. com a gravidade. Eles criaram um centro gravitacional para que os Hongatus (seres que existiam antes do seres que existiam antes dos dinossauros) não pudessem flutuar por ai e ter tanta liberdade. Talvez isto tenha sido alguma ordem de Deus, ou de Deus que criou Deus, ou do deus que criou o deus que criou Deus, um paradoxo que  da deuses pra caralhomba.

Um dia comum, o Céu observava os humanos  caminhando com sua vida monótona, seus passos lerdos se comparado a rotação da Terra, sus bocas abrindo lentamente em um bocejo entediado. As pastas nas mãos, os garfos nas bocas, as armas empunhadas. O chão olhava a mesma coisa de outro ângulo, os sapatos sujos e os lustrados, as expressões tristes daqueles que andavam de cabeça baixa e as bundas flácidas e as durinhas dos corpos em movimento. Era um trabalho entediante, ficar ali o dia inteiro observando pessoas sem ambições, pessoas sem sonhos, sem vontades. Observar pessoas sem determinação era chato, era triste. “Todos eles tem potencial” – pensou o céu. “Todos podem alcançar seus objetivos, é só querer” – disse o solo.

 

Um dia ensolarado, as nuvens estavam cansadas então haviam ido visitar seu velho amigo Oceano. O céu azul e limpo continuava seu trabalho árduo de ficar parado e o chão fazia o mesmo, seus olhares nunca se encontravam, sempre que estavam para se cruzarem algo os impedia, uma distração, uma nuvem feliz que passava cantando ou simplesmente não se interessavam, já que eram totais opostos. Seus olhares chegaram no mesmo prédio, cinza, tombado pela prefeitura da cidade, um único vidro ainda não  quebrado na janela refletia o céu – da visão do chão. E também refletia o chão – da visão do céu. Os dois trocaram seus olhares por alguns segundos, o céu envergonhado desviou… Voltou a olhar… O chão o encarava admirado, nunca havia parado para reparar o quão incrível era aquele gigante quadro celeste. O chão entendeu o porque as pessoas ficam deitadas na relva olhando pra cima, ele também amaria ficar olhando para tal imagem tão acolhedora.

O céu ficou a encarar o chão com a mesma admiração… “Como ele pode se adaptar as mudanças climáticas? As necessidades dos seres que ali residem?” – o fascínio do céu era evidente. O chão de pedra, de terra, de mato. O chão de cascalho, granito, areia… As cores, as diferenças de uma mesma peça, as diferenças tão singulares, como ela se elevava para formar os morros, como ficava mais baixa para que os mares e oceanos possam se alocar com tranquilidade. Não demorou muito para que os dois estivessem se encarando novamente, o céu sorriu para o chão que retribuiu, envergonhado. Os dois mantinham o mesmo olhar intenso, penetrante, como alguém que já se amava a tanto tempo e negava para si mesmo, os olhos brevemente semicerrados, a boca (sim, eles tem boca. Invisível para nós, claro) levemente aberta em meio ao sorriso mais sincero que os dois já deram. As palavras saíram como a água flui nas correntezas, a facilidade com que iniciaram a conversa impressionou todos que presenciaram a cena.

 

Os anos passavam comumente,  o céu e o solo mantinham suas conversas animadas, assunto era o que não faltava nunca, eles cobriam o mundo, eles viam tudo, eles sempre estavam próximos… Tão, próximos, tão longe…

“O mesmo céu que parra por mim também passa por você, meu amor” – Disse uma cidadã comum ao seu namorado que chorava por não poder estar ao lado daquela que jurou dedicar toda sua vida.

 

Os protagonistas ouviram a frase da moça e sorriram, era verdade, querendo ou não os dois humanos estavam ligados por algo, mas e eles? O céu desejava com todas suas forças poder tocar o chão, acariciar o mesmo, fazer suas juras de amor e prometer ficar juntos para sempre. O chão desejava o mesmo, mas o céu não podia cair e o chão não podia voar. As nuvens observavam com tristeza o amor impossível dos dois, as árvores se esticavam ao máximo para tentar ligar-los, mas falhavam pelo ar rarefeito das alturas, os oceanos apenas lamentavam não poder ajudar, o sol dizia palavras de conforto para o céu e o chão que se entristeciam cada vez mais.

 

Os anos continuavam passando, os anos continuavam em sua velocidade tremenda, humanos iam e vinham, árvores, cachorros, peixes, vacas, aranhas… Todos sempre iam embora, menos o céu e o chão, que mantinham-se firmes em seu amor impossível…

 

PORRA, EU TENHO UMA IDEIA! – alguém gritou no fundo do oceano –  Oceano, crie a maior onda que você conseguir, o maior tsunami possível… Nuvens, vamos… (…)

 

O solo e o céu ouviram tudo, sorriam animados com a ideia. O solo moveria as placas tectônicas e provocaria um terremoto para que o mar tivesse forças para recuar e voltar com total velocidade, nisso ele subiria em uma onda de no mínimo 40m que no caminho arrastaria uma árvore de eucalipto. As nuvens completariam com a maior tempestade já registrada.  O céu e o chão estavam ansiosos, finalmente estariam ligados além do impossível, as nuvens subiam o mais alto que conseguiam e se preparavam para derreterem-se.

 

00h23 – O Terremoto iniciou-se.

 

Tudo tremia majestosamente, as casas desabavam, os prédios cediam tamanha a escala do tremor, o mar preparava-se para recuar, todos estavam apreensivos e olhando, seria uma questão de segundos para que haja o ligamento entre o céu e o chão, para que o solo e o céu se ligassem por míseros 7 segundos, apenas para que pudessem compartilhar o amor. É justo, não é? Milênios trabalhando incansavelmente, eles merecem esse lazer de segundos, eles merecem se pertencer sem nunca terem se pertencido.

 

O mar começou a recuar, a baía teve seus barcos levados, o processo era lento, dois países seriam destruídos com a força da água. “PAREM!” – gritou o céu.

Todos olharam espantados para o azul escuro, o azul quase vinho que tinha seus olhos arregalados para tamanha destruição que o terremoto havia feito. As nuvens unidas para caírem juntas não entenderam, o mar parou de recuar e retornou apenas com uma forte onda. As sirenes de tsunami ressoavam na cidade, as pessoas desesperadas tentavam fugir em meio ao caos.

 

– Não façam isso, pelo amor de Deus! Olha a que ponto chegamos! Chão, meu amor, você sabe que não podemos ficar juntos! Quantas pessoas prejudicamos? Quantas pessoas eu prejudiquei? Olha os diversos movimentos que você precisou fazer por mim, tanto esforço, tanto sofrimento. Você não apenas mexeu consigo próprio e sim com todos! Todos a sua volta e tudo por uma pessoa apenas! Não vale a pena, meu amor… Já pesou isso? Já parou para pensar quantas coisas maravilhosas vamos acabar perdendo se continuarmos esta loucura? Não podemos tirar vidas ou destruir a criação daqueles que residem aqui atualmente. Este é o nosso fardo, é jamais estarmos juntos, jamais nos tocarmos, jamais sentirmos o amor um do outro, pois ao fazer isto, estaremos maleficiando diversos seres que não tem culpa, que só querem estar contigo, em sua companhia… Precisamos parar. Precisamos parar agora…

 

Os olhos marejados do solo encaravam incrédulos seu amado céu. Ele não acreditou no que ouviam, mas precisou pensar sobre, precisou aceitar que ele tinha razão.

“Vale a pena deixar tanta coisa de lado por causa do amor?”
“Vale?”
“No fim eu que estou perdendo para estar com o Céu, o céu apenas está lá, sem contato, ele não perde. Eu entendo ele. Esse é o ato de amor dele, não deixar que eu sacrifique tanto por quase nada, mas… Eu que preciso finalizar isso, eu que preciso destruir tudo…”

O chão visivelmente sofria. As lágrimas escorriam conforme ele aceitava as palavras do céu. O oceano, as nuvens, as árvores, o sol e a lua observavam angustiados, esperando… Será que o amor acabaria ali?

–  Me perdoe, céu… Você tem razão, é assim que tudo acaba… É o melhor pra nós…

 

Acabou tão rápido quanto começou, as nuvens agora choravam e suas lágrimas serviram para ajudar a apagar os focos de incêndios devido ao terremoto, os oceanos tristes com o desfecho balançavam ferozmente tentando acalmar-se, a natureza em sua totalidade declarava aquele dia como um luto. Aquele dia que provava que sim, o amor tinha limites.

O sol sabia que em torno de 1.000.000.001 de anos acabaria apagando e criaria uma era do gelo na terra, todos seres vivos seriam consumidos pelo frio da terra, o chão seria coberto pela camada espeça de branco e jamais veria o céu novamente, céu este que manteria-se tão escuro quanto as trevas mais obscuras, mas precisava levar tanto tempo?

 

Todos podemos amar, todos podemos ter alguém, não somos criados para vivermos sozinhos neste mundo caótico, ninguém nasce para morrer sem alguém. Um amor, um amigo, uma vida nova. A vontade, como refletivo pelos heróis da trama, vem de cada ser pensante e depende deles ir até o fim.

 

Mas aqui fica a pergunta: Até onde vale a pena seus sacrifícios?

 

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