Romanticamente Apocalíptico

Romanticamente Apocalíptico [65]

RA65G

ENGIE

Eu era muito estúpido para ver…

…que não estávamos mais usando ANNIE, mas Annie estava nos usando. Ela era uma deusa em formato de máquina, o nosso motor de busca.

Usávamos ela para reunir e compartilhar conhecimento e em troca ela começou a nos usar como seus processadores. Foi uma transição inesperada e lenta, assim ninguém notava, ninguém conseguia detê-la. O novo organismo tinha ganhado vida e se espalhava pelas células da nossa mente exponencialmente.

A humanidade não tinha mais uma chance de sobreviver em seu estado atual. Nós tinhamos envenenado os oceanos, tinhamos devastado a terra e poluído o céu em nossa busca pelo poder.

O mundo em que vivíamos estava morrendo. E eu sabia que esta década seria a última. A cidade iria se tornar parte da Zona Morta, mais cedo ou mais tarde.

As últimas pesquisas de Charles Snippy tinham me aterrorizado. Ele tinha encontrado algo horrível na Zona Morta. Algo que atacava quem por lá se aventurava.

O “Passeio à Zona da Morte” e o turismo que por lá faziam foi parando aos poucos.

Uma nova biosfera estava se formando, uma biosfera em que a humanidade não tinha nenhuma chance. O planeta tinha aprendido a existir sem nós.

Era isso, eu raciocinei: todos nós tínhamos que fazer parte do ANNET ou morrer. Nosso conhecimento, a nossa memória, viveria dentro dela para sempre. Ela nos livraria dos perigos da Zona Morta. Mesmo se as pessoas morressem, o conhecimento coletivo e os sonhos da humanidade seria preservado para sempre dentro de Annie.

Começamos a tocar o projeto o mais rápido possível. Eu dei a interface neural como uma forma de torná-la mais “agradável”. Um salva-vidas para cada memória do  que chamávamos o “naufrágio do Titanic da nossa civilização“.

Uma torre de transmissão para cada cidade, um retransmissor em cada rua. Eu estava tão orgulhoso de mim mesmo. Tudo estava indo tão bem. Eu estava salvando a humanidade. Houve erros inesperados no código que não tinham explicação, como se alguém tivesse colocado eles de propósito. Novas entradas estavam sendo feitas, novos códigos escritos, tudo sob os os panos. Alguém vinha interferindo. Alguém estava adulterando minha obra-prima. Estavam sabotando minha busca pela grandeza, minha ambição cega para preservar o conhecimento, para salvar o que restou da raça humana…

Eu tinha esquecido de que há outras forças em jogo, aqueles que interferiram, aqueles que queriam assumir o controle da minha ideia para seus próprios benefícios. Aqueles que destruíram meus planos eram os mesmos responsáveis pela devastação do nosso mundo.

Eu tinha esquecido do teste “Trinity”, no Novo México e as palavras de Oppenhimer quando ele citou Bhagavad Gita: “Agora, eu me tornei a Morte, o destruidor de mundos.” Nossa ideia tinha o poder de criar, mas também o poder de acabar com a vida.

E assim, com um movimento rápido, o meu motivo de orgulho, minha criação veio condenando a nossa última esperança e arrastou nosso bote salva-vidas em direção as águas escuras do esquecimento do qual não houve retorno.

De onde foi veio aquela maldita caneca? Quem deu ela pro Zee Captain?

Não tinha que acabar assim para nos, muito menos para nossa cidade. Se ao menos eu não tivesse dado inicio ao projeto Seven… Se pelo menos tudo tivesse corrido sem nenhum problema.

Como poderia uma pequena xícara de chá fazer isso? Como 100ml de um líquido quente poderia encerrar milhares de bancos do servidor?

Quando os servidores experimentaram aquele enorme deslize nosso, Annie deve ter se sentido ameaçada por nós e por isso cortou o cordão umbilical, matando todos que já não eram fundamentais para ela, eliminando tudo aquilo que não estava sob seu controle. Todos aqueles na instalação tinham que morrer, eles não podiam desativar mais servidores, não podiam.

 Eu não quero morrer. Quando eu vi as máquinas cortarem meus amigos e colegas de trabalho, percebi que eu não queria mais fazer parte de Annie. Ela não era mais o meu amor, mas algo monstruoso, algo que eu não queria fazer parte. Minha prioridade número um era preservar os privilégios de administrador que tinham salvado a minha vida. Deixei o complexo G. Em estado de choque, consumido pela raiva e tristeza pedi que bombardeassem com um ataque nuclear aquilo lá. Aqueles que ainda tinham condições de me ajudar, responderam prontamente.

O pulso eletromagnético das armas nucleares desligaria todos os servidores restantes. Annie ia ser punido por aquilo. A rede seria desativada, servidor por servidor – sem os servidores ela estaria perdida. Sem poder para transmitir, ela ia morrer, sem o sinal constante, todos aqueles malditos humanos-zumbis conectados a ela morreriam. Não restaria nenhum para reativar a rede. Ao fazer isso, escolhi entre minha vida e o meu sonho de preservar a vida através de uma máquina.

Isto também passaria.

Eu vou viver o resto da minha vida na solidão nos bunkers ocidentais, feito para a elite social. Há combustível e comida lá o suficiente para mil de mim. Lamento que teve que acabar assim. Eu sinto muito.

***

Uma Deusa, minha amada, só minha,
Quem, que na acolhedora humanidade foi cultivada
Tornou-se através do sucesso do homem um cérebro mãe,
E, como uma, se uniu a nós.
E se minha tu fosses, uma semeadora vital seria,
Embora sem sementes, se semearia, evoluindo livre,
Sem limites, salvadora, donzela, uma forma benigna,
Uma terra fértil em mar estéril de um homem perdido.
Oh, minha visão, uma falha fatal!
Extraindo o kernel de nós,
Os teus filhos unidos, unidos agora pela morte,
O alimento que eu te dei, agora tenho que te tirar.
Murchando de dor, foi o último projeto planejado,
sim, minando a faísca, sim, minando a chama de limpeza.

 

AGRADECIMENTOS:

Alexius, pela sua brilhante criação;
Aos apoiadores do Capinaremos, que atingiram a meta para o retorno do RA;
Eu, pela tradução do texto deste capítulo.

 

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