CapinaLemos

Jogador número 1, de Ernest Cline

Olá olá pessoal, chegou mais um CapinaLemos! Hoje vamos falar um pouco sobre Jogador n. 1, o best-seller nerdinho favorito do ano que cativou até mesmo o grande Spielberg. Bora lá?

O ano é 2044 e vemos o completo caos. Governos entram em colapso e até mesmo as populações mais ricas afundam em pobreza e miséria em meio à uma crise de energia que consumiu o mundo todo. A única saída para os cidadãos em desespero é o OASIS, um sistema de realidade virtual que permite que as pessoas façam de tudo sem precisarem sair de onde estão. Quando digo tudo, é tudo mesmo. Dá pra ir à escola, trabalhar, ir à igreja e, claro, jogar, tudo através desse sistema. Neste mundo que parece que foi abandonado por Deus, encontramos Wade Wilson, um garoto de 17 anos que recebeu se chama assim porque o pai dele achou que parecia um nome de super herói. Wade é um garoto americano beeeem pobre, que vive em uma super instalação denominada pilha de trailers com sua tia, quando recebe a notícia mais incrível dos últimos anos: o criador do OASIS, James Halliday, acaba de falecer e deixa dentro da realidade virtual um easter egg para ser descoberto por qualquer usuário. E quem encontrar essa surpresa recebe o maior prêmio de todos: o acesso total aos bens do falecido ricaço, incluindo a plataforma de realidade virtual. E assim Wade começa a caçada ao ovo (como ficou conhecido o easter egg, por motivos óbvios) juntamente com seus amigos. É claro que a jornada não é tão fácil quanto parece e no meio da busca, cheia de desafios super nerds e divertidos, Wade também precisa enfrentar uma ou outra corporação do mal que almeja o lucro acima de tudo (não, não to falando da Konami).


Posso dizer sem sombra de dúvidas que Jogador n.1 foi um dos melhores livros que li esse ano. No começo estava um pouco relutante pra admitir que ela era tão bom assim… Julgando apenas pelo título, achei que era algo na linha das sagas distópicas à lá Ender’s Game que pra ser sincera não curto muito. Mas não poderia estar mais enganada. A narrativa é muito envolvente e a gente se relaciona muito com ela. Cline sabia muito bem sobre o que estava escrevendo e pra quem ele estava escrevendo. De certa forma, parece que ele transferiu uma obsessão própria dele pelos anos 80 e pelos temas nerd para o livro e a melhor coisa que qualquer autor pode fazer é escrever sobre aquilo que conhece. Enquanto lia o livro eu também fiquei obcecada pela década dos mullets e do new wave tanto quanto os personagens! O livro todo é um show de referências que nos são muito familiares — Alô alô Blade Runner, De Volta para o futuro, Atari e Dungeons & Dragons — e outras desconhecidas que mesmo assim a gente acaba querendo saber mais e trazer pras nossas vidas. O autor ainda teve o cuidado de descrever detalhadamente cada referência de forma que mesmo se você não conhecer, fica sabendo o que é através da narrativa. Claro que isso adiciona um bom volume no livro, mas é algo que a gente nem percebe de tão tranquila e casual que é a escrita dele.

Uma cena do filme, que estreou no começo deste ano. Nela podemos ver duas referências à cultura pop e ao mundo dos games: a Tracer de Overwatch e a Chun Li de Street Fighter.

Outra coisa merecedora de destaque é esse mundo futurista fora da plataforma do OASIS: um mundo pós-apolíptico que foge em muito do estereótipo cyberpunk que a gente tá acostumado a ver por aí. Esqueça as placas de neon reluzentes e pessoas de cabelo colorido que odeiam androides. Por aqui o mundo é construído a base de areia, superpopulação e os velhos preconceitos contra as minorias de sempre. Na verdade, eu achei que a ideia de ocorrer uma crise massiva de combustíveis aliada ao surgimento de uma plataforma de realidade virtual extremamente realista e assustadora. Acho que em uma situação assim, as pessoas ficariam realmente mais pobres do que já são e fariam uso dessa tecnologia de forma cada vez mais intensa numa tentativa de fuga desesperada da realidade. Por outro lado eu achei realmente desnecessário a forma como a coisa toda foi apresentada no livro: há capítulos exclusivamente dedicados à vida do Wade fora do OASIS e eles são muito maçantes. Fica claro que o autor colocou eles ali só pra poder explicar como funciona esse futuro que ele criou. O que nos leva a outro ponto: A grande vilãzona da história: a corporação IOI. Me desculpa Ernest Cline, mas ela é um baita clichezão da corporação malvada que quer ganhar dinheiro e deixar quem é pobre cada vez mais pobre e quem é rico, cada vez mais rico. Ah, e que não mede esforços pra alcançar esse objetivo. Acho que com tanta coisa diferentona que esse livro apresenta, um pouco mais de atenção poderia ter sido dada pro vilão da história. Entretanto, aquela batalha final de robôs na realidade virtual foi épica com clichê ou não (isso não foi spoiler gente, eu juro)!

Mesmo sendo um baita livrão, teve algo que deixou muito a desejar na minha opinião: há momentos em que a narrativa fica maçante. Muito, mas muito maçante. Isso porque tratam-se dos capítulos que o autor busca desenvolver melhor a personalidade do Wade enquanto ser humano, adolescente, vivendo aquela aventura louca. Mas o fato é que os traços de caráter do protagonista ficam muito mais evidentes ao longo da narrativa, enquanto ele se depara com os vários desafios trazidos pela caça aos easter eggs, enfrentando a IOI e trabalhando ao lado dos seus amigos do que nos cinco capítulos de lenga-lenga que em muito me lembram os dramas adolescentes dos quadrinhos do Homem-Aranha. Em outras palavras, foi só encheção de linguiça pro livro ficar com mais páginas. Páginas essas que poderiam ser melhor aproveitadas lá no final, desenvolvendo um epílogo um pouco mais satisfatório.

Porém, respondendo a pergunta “Vale a pena ou não ler Jogador n.1?“, eu diria: vale, com certeza! É uma história muito original, que foge do que a gente tem visto nos livros de ficção científica ultimamente. Aqui não tem distopia, rebelião, escolhido (não me levem a mal, eu curto esse tipo de livro também, mas uma hora cansa né gente?)… aqui tem um garoto vivendo uma vida desgracenta, num mundo horrível e que de repente se depara com o melhor jogo da vida dele e que de quebra vem com um baita prêmio no final. E referências pessoal, tantas referências incríveis.

Você pode comprar o livro na Saraiva e o filme já está disponível para assinantes do Looke.

Assim encerramos o CapinaLemos de hoje, eu sou Lu Scaglione, um beijo e até a próxima leitura!

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