Papo Sério

Cabo de guerra social: Conservadorismo x Progressismo

Antes de mais nada, deixem-me detalhar como defino os movimentos “progressistas” e “conservadores”, muito porque os movimentos significam coisas diferentes em diferentes partes do mundo, além de significarem coisas diferentes em diferentes momentos da história.

Os progressistas, como o belo nome sugere, acreditam estar liderando o progresso da sociedade. Isso significa quebrar todos os possíveis tabus, dogmas, doutrinas e preconceitos que imperam na sociedade, ou pelo menos na maioria da sociedade e em velhas instituições herdadas de nossos antepassados, como a Igreja e o patriarcal conceito de família. Eles querem se livrar dessas amarras ideológicas ortodoxas e antiquadas, em prol do novo, da liberdade de ser quem você quiser, na hora que quiser e como você quiser. Além disso, os progressistas lutam pela igualdade social, acreditam que uma sociedade ideal é uma sociedade que seja inclusiva, diversificada e, por causa disso, justa.

Já os conservadores modernos procuram entender quais destas instituições milenares que compõem a sociedade fazem sentido e precisam de alguma forma serem defendidas. Eles acreditam que alguns destes dogmas, doutrinas e até alguns preconceitos (no sentido de uma ideia pré-concebida) são fundamentais para que a vida em sociedade se mantenha num nível civilizado. Acreditam em hierarquias, em meritocracia, são territoriais (patriotas), valorizam a religião (algumas delas), valorizam a família (mas geralmente no modelo “tradicional”) e creem que a mudança social deva se dar muito gradativamente, sem revoluções.

 

E essas duas “forças” estão em um permanente cabo de guerra, ou seja, tentando puxar a corda (sociedade) para o seu lado. Esses movimentos usam todas as ferramentas disponíveis para ganhar a dianteira, entre as principais ferramentas de influência social temos a política, onde a esquerda geralmente está mais ligada ao progressismo e a direita mais ligada ao conservadorismo, pelo menos aqui no Brasil.

Além da política, mas geralmente relacionada a política, temos a “grande mídia”, conglomerados de grandes redes de comunicação, que através das pautas de seus programas, do viés de suas novelas, da forma que as notícias são expostas e através dos influenciadores contratados para apresentar seus programas ou convidados para participarem dos mesmos.

Outras ferramentas bastante utilizadas, apesar de serem de mais médio ou longo prazo, porém sendo profundamente efetivas, são as instituições de ensino. As escolas são usadas para pregar seus conceitos e ideologias na mente em desenvolvimento dos jovens. Espera-se que isso geralmente aconteça com mais força apenas nas faculdades, sobretudo nas disciplinas de humanas, mas não necessariamente fica restrito a esse patamar.

Inúmeras outras ferramentas são utilizadas, como movimentos populares, muitas vezes financiados pelo próprio governo no poder, outras vezes financiados por organizações de grandes bilionários, com os mais escusos e conspiratórios objetivos por trás.

Observamos nas últimas décadas, em praticamente todo mundo, um domínio amplo do progressismo em praticamente todas essas instituições que citei anteriormente. Governos de esquerda, não necessariamente comunistas ou socialistas, mas auto-declarados representantes do proletariado e dos sindicatos, e também os conhecidos como sociais-democratas, foram eleitos consecutivamente e dominaram a “máquina pública”. Influenciando, consequentemente, a mídia, as instituições de ensino, criando e fortalecendo movimentos populares e, enfim, se tornando o “establishment”.

O lado conservador do cabo de guerra parecia ter desistido de puxar, estava praticamente sendo arrastado pelo campo, sem possibilidade aparente de reação. Porém, mais recentemente, alguns importantes representantes desta esquerda progressista tropeçaram enquanto puxavam a corda com força demais. Alguns dos tropeços que posso citar foram:

  • Corrupção: Como diria Lord Acton, “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Ou seja, nem todo progressista que assumiu as posições de poder foi bonzinho, igualitário e preocupado com as minorias, ouso dizer que esses foram a minoria. A maioria, ao assumir o poder, utilizaram desse em benefício próprio ou de parceiros. Apesar de tentativas de aparelhar todos poderes, inclusive os que seriam responsáveis por julgarem seus possíveis crimes, muitos acabaram caindo pelo caminho;
  • Incompetência/Ignorância: Nem sempre você ter boas intenções fará que seus planos deem certo. Em diversos locais pelo mundo pudemos observar que quanto mais o governo social-democrata tentava regular a economia, intervir no livre mercado, aumentar impostos para cobrir rombos orçamentários, tentar fornecer serviços públicos utópicos, caros e ineficientes, mais a sociedade começa a degringolar. Durante essa ascensão da esquerda democrática, vimos diversas crises econômicas pontuais dentro dos países, mas também crises globais que prejudicaram toda cadeia de produção mundial. Podemos atribuir isso a um mix de incompetência ao tentar fazer boas ações e a ignorância de como funcionam os princípios básicos dos mercados de trocas voluntárias;
  • Politicamente correto: Aqui temos um ponto cultural interessante, velhos “tabus” foram de fato quebrados nas últimas décadas, muito devido a essa “revolução cultural” embarcada no progressismo. Até poucos anos atrás a sociedade em geral era muito mais racista, homofóbica e machista do que é hoje, ou pelo menos era mais comum você observar declarações que hoje são consideradas retrógradas e preconceituosas. Muito desse “levante das minorias” se deu devido a popularização da internet, sobretudo com o crescimento das redes sociais, onde cada indivíduo ganhou voz e de certa forma se tornou um produtor de conteúdo e um fomentador de debates.
    Entretanto, segundo os conservadores, esse politicamente correto, assim como uma de suas divas expoentes, foi longe demais. Ele deixou de ser uma “problematização” de termos, piadas e declarações abertamente racistas, machistas e homofóbicas, para se tornar praticamente uma ‘thinkpol‘ (a famosa Polícia do Pensamento, do clássico 1984, de George Orwell). Ou seja, qualquer piada ou declaração que fugisse uma vírgula do que fosse “socialmente aceito”, era duramente criticado, não apenas por todos esses pequenos formadores de opinião virtuais, mas também repercutia na grande mídia e, em alguns casos extremos, acabavam virando até legislações, sendo os perpetuadores destas declarações multados, demitidos e até presos.

Um povo cada vez menos livre, no sentido econômico devido a falta de dinheiro (muitos impostos e pouco retorno devido a corrupção e incompetência), e no sentido cultural devido a esse cerceamento do livre pensamento, fez nascer uma espécie de “contra-revolução” conservadora. Esse “levante conservador” já teve algumas importantes vitórias, como a vitória do Trump nos EUA, o Brexit na Europa e, mais recentemente, a vitória de Bolsonaro.

E assim o cabo de guerra segue sendo travado. Agora, no poder político, os conservadores terão a vantagem de comandar algumas instituições que dependem do dinheiro público para existirem e outras, que interessadas nesta “mamata”, culturalmente virarão a casaca.

Cabe aos progressistas, momentaneamente derrotados, analisarem onde erraram e traçarem estratégias para voltar ao poder ou, ao menos, ceder o mínimo possível de território aos conservadores. E cabe aos conservadores aprenderem com os erros de seus antecessores, serem mais eficientes no controle da máquina pública, abolirem a prática de corrupção (ou se corromperem menos, para ser realista) e, culturalmente, deixar a sociedade se decidir, não tentar reconstruir através da imposição velhos tabus que já foram quebrados.

Enquanto isso eu, libertário, sigo assistindo a briga de fora, comendo minha pipoca, torcendo para que um dia a corda se revolte de ser puxada e se torne livre dos mandos e desmandos da esquerda e da direita.

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